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Arman Akopian

Uma paz ruim é melhor que uma boa guerra

Para a Armênia, conflito em Nagorno-Karabakh não passa por solução militar

Arman Akopian

Embaixador da Armênia no Brasil

No artigo “Será a guerra a única opção?”, publicado nesta Folha na segunda-feira (19), o embaixador do Azerbaijão no Brasil, Elkhan Polukhov, fez um esforço para justificar a agressão de seu país —a guerra mais feroz do século 21 até agora— contra Nagorno-Karabakh. A propaganda pouco sofisticada do artigo requer alguns esclarecimentos.

As resoluções da ONU foram adotadas há quase 30 anos e refletiam a situação existente na época. Os armênios atenderam à sua principal exigência: cessar as operações militares e se comprometer com a resolução pacífica do conflito. É o Azerbaijão quem viola as resoluções ao rejeitar as negociações e iniciar guerras. Os mediadores internacionais, EUA, França e Rússia, nunca mencionam as resoluções e não as aceitam como parte de sua metodologia para a resolução do conflito. São usadas exclusivamente pela propaganda oficial do Azerbaijão.

A resolução da Assembleia Geral da ONU de 2008 não tem força vinculativa. Foi apoiada apenas pelos países muçulmanos porque o Azerbaijão sempre apresentava o conflito como uma guerra religiosa entre a Armênia cristã e o Azerbaijão muçulmano. O Azerbaijão está sustentando essa impressão ao importar milhares de terroristas islâmicos para lutar em ​Nagorno-Karabakh, um fato que foi comprovado em várias ocasiões pelos presidentes da França e da Rússia, pelos serviços de segurança russos e americanos, pelo Departamento de Defesa dos EUA e por outras fontes confiáveis.

As palavras do primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, são citadas fora do contexto. O que ele disse foi que Artsakh é uma parte da antiga pátria armênia, fato histórico inegável encontrado em qualquer enciclopédia. O mesmo vale para as palavras do ministro da Defesa, David Tonoyan, que declarou que se o Azerbaijão iniciar uma nova guerra, será uma guerra na qual poderá perder novos territórios.

Armênios protestam em Ierevan na segunda-feira (19) - Tigran Mehrabyan/PAN Photo/Handout via Reuters

Os habitantes de Nagorno-Karabakh não são cidadãos do Azerbaijão —eles rejeitaram essa opção em um referendo legítimo em 1991. Durante as últimas três décadas, uma nova geração emergiu em Nagorno-Karabakh, em um estado democrático e uma sociedade livre. Dificilmente aceitarão ser cidadãos de uma autocracia ditatorial governada por uma família conhecida por sua corrupção e práticas opressoras. É totalmente cínico que o Azerbaijão os chame de seus cidadãos enquanto os bombardeia constantemente. Será que os drones sobre suas cabeças convencerão os armênios de um futuro melhor sob o governo do Azerbaijão?

A história recente do Azerbaijão provou em mais de uma ocasião que os armênios não podem ter nenhuma garantia de segurança naquele país. O povo de Nagorno-Karabakh enfrenta uma ameaça existencial de intenção genocida do Azerbaijão, que quer territórios, mas não o povo que vive neles há três milênios.

A Armênia acredita firmemente que o conflito em torno de Nagorno-Karabakh não tem solução militar, e assim também é a posição unânime da comunidade internacional. Quanto mais cedo a liderança do Azerbaijão entender isso, mais vidas preciosas serão salvas de ambos os lados.

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