Descrição de chapéu

Humano e genial

Dentro e fora dos campos, o argentino Maradona uniu o admirável e o equivocado

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Diego Maradona, em foto de 2010, quando fazia tratamento contra as drogas em Cuba - Alfredo Tedeschi - 20.nov.10/Reuters

Morto nesta quarta-feira (25), Diego Armando Maradona Franco simbolizou como nenhum outro jogador a relação entre o que acontece dentro das quatro linhas do futebol e o mundo além delas.

Se Pelé foi o nome à frente da transformação do esporte num fenômeno global, o argentino capitaneou a reação ao negócio multimilionário. Vocalizou demandas sindicais dos atletas e apontou repetidamente a corrupção de seus dirigentes —sem deixar de se aliar a eles quando lhe interessava.

A transformação em ícone da esquerda latino-americana, denotada pela famosa tatuagem de Che Guevara, materializou-se com o empréstimo de sua imagem ao regime cubano, com o apoio ao chavismo e ao kirchnerismo e com protestos contra o governo americano.

Maradona desenvolveu extraordinária ligação sentimental com seu país. Não há de ser coincidência que sua maior atuação, e uma das mais famosas de qualquer atleta em qualquer esporte, tenha se dado na partida em que a Argentina eliminou a Inglaterra na Copa de 1986 —apenas quatro anos depois de os ingleses humilharem os argentinos na Guerra das Malvinas.

Fora da política, acabou por converter sua vida em uma das mais conhecidas histórias de envolvimento com drogas. Os sucessivos altos e baixos, com internações em hospitais e frequente proximidade com a morte, decerto resultaram em efeito mais didático do que muitas campanhas de saúde sobre a dependência química.

Teve tempo ainda para se envolver com a máfia italiana, o que resultou em outro episódio no qual as linhas do gramado do futebol ficaram borradas por questões fora delas. Segundo uma tese de investigação, a Camorra levou o Napoli, clube onde Maradona mais brilhou, a entregar um campeonato.

Quando esteve livre de obstáculos extracampo, Maradona ajudou a consolidar as características que fazem do futebol uma das mais celebradas criações humanas. Durante duas décadas, escreveu uma história repleta de jogadas imprevisíveis e de momentos lúdicos.

É provável que ninguém tenha tido papel individual tão importante numa Copa como o desempenhado pelo argentino em 1986.

Como sói acontecer com os gênios, carregou o admirável e o equivocado em ligação muito próxima. No papel de ídolo que cabe às estrelas do futebol, serve de exemplo e antiexemplo. Que a história dê a Maradona o tratamento que merece —humano nos erros e acertos fora de campo, genial dentro dele.

editoriais@grupofolha.com.br

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