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Ronilso Pacheco

Novembro não será senzala simbólica

Este mês não é sobre demandas da população negra, mas demandas do país

Ronilso Pacheco

Teólogo, pastor auxiliar na Comunidade Batista de São Gonçalo (RJ) e ativista, é autor de “Jesus e os Direitos Humanos” (Usina de Valores) e “Teologia Negra: o Sopro Antirracista do Espírito” (ed. Novos Diálogos)

Lélia Gonzalez já nos ensinava que as sociedades ibéricas colonizadoras, ao serem “racialmente estratificadas, dispensaram formas abertas de segregação, uma vez que as hierarquias garantem a superioridade dos brancos”. O Brasil, e a sociedade brasileira, é herdeiro disso. É novembro de 2020, e nós continuamos exatamente neste mesmo ponto.

A racialização das agendas do país não é uma prática do movimento negro, é uma prática da elite branca pensante e dos brancos formadores de opinião do país. O histórico de desigualdade e violência que incide sobre a população negra não é um problema apenas da população negra, mas sintomático de um país desigual e violento. A história do povo negro no Brasil tem sido, ao contrário, de desracializar a estrutura e o pensamento social brasileiro.

Ronilso Pacheco - Teólogo, pastor auxiliar na Comunidade Batista de São Gonçalo (RJ) e ativista, é autor de “Jesus e os Direitos Humanos” (Usina de Valores) e “Teologia Negra: o Sopro Antirracista do Espírito” (ed. Novos Diálogos)
O teólogo, ativista e escritor Ronilso Pacheco - Divulgação

Ouvir o que o movimento negro tem a dizer sobre violência, democracia, educação e saúde não é ouvir as “pautas de um segmento da sociedade”, é ter o canhão de luz direcionado para a nossa dolorosa maneira de ser enquanto sociedade, enquanto política pública oferecida, enquanto estrutura, enquanto democracia real.

É preciso abandonar a armadilha que pode tornar o mês de novembro uma espécie de “senzala simbólica”. Não foi isso que os homens negros e mulheres negras sonharam quando escolheram este mês como forma, também, de rechaçar a ideia do 13 de maio como o dia da “benevolência da princesa branca”. A ideia nunca foi ter um mês que “concentrasse” as demandas negras. Até porque as demandas de mais da metade da população de um país são as demandas de todo o país.

Não pode haver “novembro negro” com um governo anti-negro. Não pode haver “novembro negro” se o país onde estes negros e estas negras existem ​racializa suas demandas como se elas fossem tão somente de negros e negras.

Como disse Toni Morrison, “a imposição da ausência racial é um ato racial”. Os grandes debates políticos do país, a grande discussão de um projeto de país, inclusive o que passa de quatro em quatro anos nas eleições, continuam sendo feitos sob a fictícia ideia de que é possível pensar o Brasil sem reconhecer os efeitos da estratificação racial. Mas isso é um ato racial.

É ato racial que não tenhamos prefeitos negros ou (principalmente) prefeitas negras eleitas no país. É ato racial que, mesmo olhando à esquerda, a representação negra tenha sido tão modesta e muitas vezes exotizada. É ato racial entrevistar pessoas negras em novembro. Dar a elas seus “30 dias de fama”. É ato racial a mídia branca.

O governo Jair Bolsonaro mantém uma agenda profundamente comprometida com a desqualificação, negação e destruição das conquistas da população negra. Na sua gestão orientada pelo ódio, encontrou um homem negro disposto a ser seu braço direito neste projeto. Assim, criou uma guerra suja entre “gente da mesma cor”. Seu mau-caratismo e a desonestidade de seu governo colocam negros em confronto, criando um ambiente de embate em que “brancos só podem olhar”.

As demais instituições de Estado da democracia do país, com seus homens brancos à frente, toleram a inconcebível presença de uma liderança negra posta para afrontar a própria comunidade negra, e isto a partir de uma instituição que foi idealizada e criada para ser seu grande referencial.

Se a data da morte de Zumbi dos Palmares foi o lugar de memória escolhido pelo movimento negro brasileiro para saudar a vida negra, como é tolerável que a instituição que leva seu nome seja comandada por alguém que o odeia?

Novembro foi escolhido para que o país não esquecesse quem sustentou o peso de sua desigualdade e de sua injustiça. Não é apenas sobre cotas, Covid-19 e genocídio. É sobre economia, é sobre terra, propriedade, trabalho, PIB, democracia. É sobre felicidade. Não é sobre a população negra tão somente, é sobre o país.

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