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Heiko Thoms

O amor dos alemães

Estamos dispostos a compartilhar experiências em prol da Amazônia

Heiko Thoms

Embaixador da Alemanha no Brasil

Nós temos um amor muito especial na Alemanha. Uma relação com seres que existiam muito antes do povo alemão. No ano de 1713, quando o número desses seres diminuiu bastante, um nobre da Alemanha, Hans Carl von Carlowitz, advertiu no seu livro “Sylvicultura oeconomica” sobre o perigo para a sociedade quando ela usa para benefício próprio mais desses seres do que a natureza pode reproduzir, criando assim o termo “sustentabilidade”. Essas ideias foram se ancorando na alma do povo alemão, no romantismo, juntando-se com ideias pagãs: antes do cristianismo, as tribos da Alemanha consideravam esses seres como santos, representando forças divinas na terra.

Imagino que os prezados leitores já perceberam do que estou falando: das árvores, da floresta. Hans Carl von Carlowitz exigiu que, para cada árvore derrubada, uma nova fosse plantada. Ele fez isso não somente pelo amor à natureza, mas também pelo interesse econômico: a floresta, uma vez desmatada, não pode ser utilizada economicamente. Desde o início do século 19, este pensamento encontra aceitação geral. A área de florestas na Alemanha cresceu continuamente e está crescendo ainda mais.

O diplomata Heiko Thoms, embaixador da Alemanha no Brasil - Marcos Corrêa - 19.ago.20/PR

Todos os governos da Alemanha, de Helmut Kohl, de Gerhard Schröder e de Angela Merkel, cooperaram com os diferentes governos do Brasil para a proteção das florestas no país, seja na Amazônia, na mata atlântica ou no cerrado. Não por romantismo, mas para preservar um patrimônio que tem um valor incalculável: nesses biomas, podemos encontrar soluções naturais para doenças até agora incuráveis, além do uso sustentável da madeira e dos produtos da região.

A Alemanha, no total, investiu mais de R$ 3 bilhões na cooperação com o Brasil para a proteção das florestas brasileiras, incluindo também a demarcação das terras e a proteção dos povos indígenas. Com experiência de três décadas de cooperação com o Brasil, conhecemos a Amazônia e a complexidade da região muito bem.

Na cooperação, sempre nos baseamos na ciência. Brasil e Alemanha estão cooperando em um projeto internacional da pesquisa na Amazônia, a torre ATTO ("Amazon Tall Tower Observatory"), mais alta do que a torre Eiffel. Sabemos que a mudança climática está acelerando. Sabemos que os dados do desmatamento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) e outras instituições mostram uma mensagem clara: o desmatamento avança, e está avançando a um passo acelerado.

E essa tendência nós temos que reverter juntos. A Alemanha, assim como outros países, está disposta a compartilhar as suas experiências. Aceitamos o convite do senhor vice-presidente, Hamilton Mourão, para uma viagem na região exatamente para continuar o diálogo nesse sentido. E deste diálogo esperamos um resultado concreto: ações concretas para reduzir o desmatamento do maior bioma do mundo.

O continente inteiro precisa da floresta amazônica para garantir o abastecimento com água dos rios voadores. Sem água, não haverá agroindústria, nem na Amazônia nem em Mato Grosso do Sul. E, também, para o benefício do clima mundial. E digo a quem não acredita nisso: que o faça então pela beleza da natureza, pelo canto das araras, pelos rios cristalinos cheios de peixes e por uma vida saudável dos ribeirinhos. Pelo amor ao povo brasileiro.

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