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Barbara Brito

O legado afro-brasileiro

Resistência dos negros foi capaz de preservar cultura sob ameaça de aniquilação

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Barbara Brito

Engenheira civil, especialista em políticas públicas e mestre pela University College London

​Há pouco mais de um ano, conheci por acaso a obra do artista plástico norte-americano Daniel Minter. Ao folhear uma publicação estrangeira, deparei-me com uma série de pinturas com representações profundamente familiares. As imagens ilustravam uma entrevista com o artista nascido no sul dos Estados Unidos e mostravam cenas oníricas com personagens negros, em vestes brancas e amplas que pareciam feitas de renda.

A arte de Minter, por meio da pintura, escultura e ilustração, retrata com sensibilidade e força a diáspora africana e seus desdobramentos. Nessa entrevista, ele falava de sua arte como forma de conexão espiritual e cultural com o seu povo e tratava especialmente de uma comunidade de descendentes de escravos na ilha de Málaga, no estado americano do Maine, que foi praticamente extinta com a expulsão dos seus residentes.

Em um dado trecho da entrevista, Minter relata como um período que passou em Salvador transformou o seu trabalho como artista. Ele encontrou na Bahia uma referência afetiva e visual, que remonta aos seus ancestrais africanos, e se impressionou com o que ali descobriu em termos de expressão artística, musical e religiosa. As tradições e costumes de origem africana, que haviam sido duramente reprimidos nos Estados Unidos, eram não apenas visíveis, mas parte fundamental da identidade cultural da região.

O que havia sido, em alguma medida, apagado nos Estados Unidos era orgulhosamente exibido no Brasil e, para ele, foi como se aquilo que ele somente conhecia por meio de histórias e relatos ancestrais fosse tornado concreto. Ali se estabeleceu um vínculo que perdura e influencia seu trabalho até hoje.

O que Daniel Minter vivenciou na Bahia, a conexão da música, da dança, da culinária e da espiritualidade de lá com o continente africano, é fruto da resistência histórica das comunidades afro-brasileiras. A preservação dessa herança cultural se deu por meio de muita luta, uma vez que também por aqui as tradições africanas foram sistematicamente perseguidas e reprimidas.

Pode-se dizer que, nesse aspecto, a resistência dos negros no Brasil foi além da de seus irmãos norte-americanos, já que foi capaz de proteger parte de um legado cultural que estivera sob ameaça de aniquilação.

É preciso saudar a história de resistência da cultura afro-brasileira, uma expressão importante da luta contra o racismo. A influência das tradições africanas na música, culinária, dança e espiritualidade brasileiras são evidentes. Aquilo que o Brasil tem de original é profundamente marcado por essa herança cultural.

Olhando para frente, o desafio que está posto, tanto no Brasil como no mundo, diz respeito a mudanças mais profundas. O combate ao racismo irá pressupor o rompimento de estruturas de opressão historicamente construídas. E, para isso, será preciso que os negros ocupem posições às quais até então tiveram pouco acesso.

Houve avanços institucionais importantes no Brasil nas últimas décadas, como as políticas de cotas e da autodeclaração racial, conquistas do movimento negro que já se provaram ferramentas eficazes de inclusão racial. Mas é preciso muito mais.

Se, na dimensão cultural, a originalidade brasileira está intimamente ligada à contribuição das tradições africanas, não é difícil imaginar o potencial criativo resultante de uma maior participação dos negros nas demais áreas do conhecimento.

No direito, que novas formas de pensar o sistema penal e de Justiça poderiam emergir? De que forma as relações trabalhistas poderiam ser aprimoradas? Na economia, que estratégias de combate à desigualdade poderiam ser traçadas? Que políticas urbanas são necessárias nas comunidades das diferentes periferias metropolitanas? É urgente que negros, que representam mais da metade da população brasileira, ocupem esses espaços, enriqueçam o debate público e atuem na formulação de uma agenda mais inclusiva.

O caminho para o desenvolvimento socioeconômico do país passa necessariamente por essa reparação. Não se pode mais adiar essa tarefa. O Brasil tem uma enorme dívida com os guardiões da sua valiosa herança cultural.

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