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Mozart Neves Ramos

Os desafios do retorno às aulas presenciais

PPPs poderão colocar em prática políticas públicas para a educação

Mozart Neves Ramos

Titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP (Ribeirão Preto) e membro consultivo da Mind Lab

Escolas de todo o país começam a receber seus estudantes, mesmo que de forma gradual, em conformidade com as recomendações sanitárias locais e orientações das redes de ensino, pautadas pelos pareceres e resoluções do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Os últimos meses de pandemia de Covid-19 foram de grande aprendizado para professores, estudantes e famílias —todos procurando trabalhar de maneira harmoniosa em busca de um objetivo comum: o aprendizado mediante o chamado “ensino remoto”. Nesse cenário, ficou muito evidente a enorme desigualdade educacional vigente em nosso país em relação ao acesso a tais atividades, por conta da conectividade ao mundo digital.

O educador Mozart Neves Ramos discursa em reunião da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado - Marcos Oliveira - 24.out.16/Agência Senado

Por outro lado, foi muito gratificante verificar os esforços de professores para que seus alunos não deixassem de ter acesso às tarefas escolares. Muitos chegaram a levá-las pessoalmente a cada um de seus alunos, usando diferentes meios de transporte.

Também foi relevante nesse processo a maior participação dos pais na supervisão dessas tarefas. A pandemia fez com que os pais voltassem a assumir o papel de educar junto com a escola, seguindo antigo provérbio africano —“para educar uma criança é preciso toda uma aldeia”— e em consonância com o artigo 2° da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

O processo de retorno às aulas presenciais, como dissemos, está sendo feito gradualmente, escalonando a participação dos alunos por série escolar. Enquanto a vacina não chega, torna-se relevante manter os cuidados higiênicos e as recomendações sanitárias, além de fortalecer os vínculos entre a escola e a família. No ambiente escolar, é fundamental estabelecer um programa de acolhimento socioemocional para apoiar professores e alunos nessa retomada, dando a devida atenção à saúde mental da comunidade escolar.

Em uma pesquisa com cerca de 1.400 professores de redes privadas e públicas de ensino no período de julho a agosto de 2020, realizada pela Mind Lab, “edtech” líder mundial em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias educacionais inovadoras, ficou constatado que 31% dos professores disseram acreditar que o maior desafio ao retornarem às salas de aula será o de lidar tanto com as emoções pessoais como com as dos alunos.

Além disso, muitos deles falaram da importância do acolhimento, principalmente em um cenário em que cada um vivenciou a epidemia de forma diferente. Eles também mencionam o desafio de ensinar as crianças e os pais a lidarem com a ansiedade e com as diferentes sequelas deixadas pela doença.

Outro aspecto que merece uma atenção especial dos gestores escolares, nesse momento de retomada, é fazer uma avaliação diagnóstica para saber o que foi ou não aprendido pelos alunos nesse período de ensino remoto. Nesse sentido, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), enquanto bússola das aprendizagens essenciais, exercerá um importante papel.

É relevante lembrar ainda que 2021 vai ser um ano em dois pela necessidade de integrar as atividades escolares regulares às deste ano, no que está sendo chamado de um continuum curricular. Isso vai exigir um forte trabalho de planejamento e de foco para que as aprendizagens escolares sejam efetivadas para todas as crianças. O ano de 2021 se apresenta até aqui como um período de grandes restrições orçamentárias, em consequência dos estragos provocados pela Covid-19 na economia do país. Por isso, entendemos que as parcerias público-privadas (PPPs) poderão ser de grande valia para colocar em prática as políticas públicas da educação.

Por fim, é bom lembrar que a Prova Brasil será realizada em 2021 num ambiente fortemente impactado pela pandemia. Não será fácil para os gestores da educação assegurar que os municípios alcancem a meta prevista do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para 2021, cuja divulgação acontecerá em 2022. Não é hora de inventar a roda. Por isso, recomendo a todos os secretários municipais de Educação que leiam o documento Educação Já Municípios, elaborado pelo movimento Todos pela Educação, que indica um caminho seguro para começar a fazer a coisa certa em prol da educação.

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