Descrição de chapéu

A política da exclusão

Retirada de homenagem oficial a personalidades negras soa a medida persecutória

O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo - Pedro Ladeira - 6.mai.20/Folhapress

A Fundação Cultural Palmares, entidade federal que tem entre suas finalidades primordiais a promoção da cultura afro-brasileira, publicou nota anunciando a remoção de 27 nomes de sua lista de Personalidades Negras —todos eles, desnecessário dizer, homenageados em períodos anteriores ao mandato do presidente Jair Bolsonaro.

Entre os excluídos estão intelectuais e artistas com amplo reconhecimento nacional e internacional e notória contribuição para o enriquecimento da cultura brasileira —que tem em sua matriz africana um patrimônio inestimável.

Basta citar a escritora Conceição Evaristo, a cantora Elza Soares, os compositores Gilberto Gil e Martinho da Vila e a ambientalista e ex-senadora Marina Silva para que se tenha a dimensão do despautério.

É conhecido, infelizmente, o diapasão ideológico obtuso e retrógrado que tem norteado a atuação de diversos órgãos do governo federal em sua guerra contra conquistas civilizatórias identificadas como articulações de um fantasmagórico marxismo cultural que estaria a assombrar o mundo.

Tem sido assim, por exemplo, na recorrente negação da ciência, no desmonte de controles ambientais, na inércia regressiva da área da educação ou no antiglobalismo tosco da diplomacia oficial.

A indicação de Sérgio Camargo para presidir a Fundação Palmares ficará como um dos emblemas dos disparates do bolsonarismo. Trata-se de um negro que parece ter sido alçado ao cargo apenas como provocação a movimentos militantes.

Camargo tem pautado sua atuação pelo revisionismo histórico, que inclui o questionamento do racismo, e por um impulso lúgubre de apagar conquistas notáveis da população afro-brasileira e de seus representantes.

Como outros expoentes do governo federal, parece viver num mundo paralelo, descolado dos fatos e evidências históricas.

Suas explicações para a exclusão dos homenageados —entre as quais uma portaria que passa a restringir a distinção a pessoas mortas— soam como meros artifícios para dar seguimento aos objetivos persecutórios que tem implantado na instituição.

Mais que justificadas, as reações de personalidades, negras ou não, que se manifestaram contra a decisão sublinham a anomalia instaurada na Fundação Palmares pelo radicalismo bolsonarista.

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