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Até onde vai a escola?

Faz-se urgente integrar saúde, cuidado e educação

VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto)

Antes refúgio e símbolo da esperança, as escolas, com a Covid-19, passaram a ser vistas com desconfiança pela sociedade. Seu funcionamento poderia expor a uma disseminação descontrolada da doença, o que as reduziu —por desconhecimento e medo— ao conceito de aglomerações evitáveis, resultando na execução de políticas protetivas que, em nome da saúde, fecharam-nas.

Com as escolas sendo tratadas como terra proibida, professores e equipes escolares precisaram construir algo que pudesse ocupar esse vazio, proporcionando estímulos mínimos à formação dos estudantes e, ao mesmo tempo, mantendo laços com as famílias. Estratégias como aulas online, visitas domiciliares e tantas outras foram tentadas. Mais do que tudo, o valor dos professores foi evidenciado por eles próprios. Apesar de tudo, o fechamento das escolas normalizou-se como consenso na opinião pública.

Novas evidências colocam dúvidas sobre o custo-benefício das crianças fora das escolas. Constatou-se a necessidade da adoção de protocolos seguros associados a um pacto da comunidade para redução da circulação viral. Tal fato transformaria os colégios em ambientes seguros para a retomada das aulas, em especial para os menores de dez anos. Escolas privadas passaram a desejar a volta a qualquer preço; as públicas, amedrontadas por suas dificuldades, continuavam a rechaçar tal retorno. A dualidade ideológica que chegou a rivalizar pediatras e professores expôs, mais que isso, um braço de ferro revelador da desigualdade social e educacional brasileira.

Porém, em todo esse tempo, pouco se discutiu, mesmo na área educacional, o valor socioemocional e cultural da escola. Aprender, encontrar com os pares e com os professores em um local que lhes é próprio perdeu seu sentido social genuíno.

Ora, se é fácil perceber os efeitos imediatos da pandemia, os tardios ainda estão na ordem do incalculável. Como medir os impactos da ausência da escola no desenvolvimento de milhões de crianças e na segurança de suas famílias? Como lidar com o vazio gerado pela falta de convívio e do aprendizado coletivo? Sem minimizar a importância de todas as perguntas em aberto, uma jamais deveria ter deixado de ser feita: por que voltar?


Porque, para as crianças, saúde e educação são dimensões indissociáveis. As escolas, tais como hospitais, são serviços essenciais que mantêm mente e corpo sãos. É na escola que as crianças e os jovens aprendem a cuidar de si para poderem, quem sabe, cuidar do outro e do mundo.

A escola é ainda um porto seguro para as famílias, que podem trabalhar tranquilas quando deixam seus filhos no local apropriado para desenvolverem-se como indivíduos.

A volta à escola pode e deve acontecer sem pressa! Para a escola existir, a sociedade e o poder público precisam se posicionar pela sua proteção e valorização como território de aprendizagens planejado e implementado para esse fim. E, dessa forma, discutir o que é preciso para que volte a funcionar ininterruptamente, de forma segura.

A escola pode —e deve!— ressignificar seus espaços, com a segurança maior que há nos ambientes abertos, ultrapassar muros e conceitos de ensino e aprendizagem, utilizando-se de outros locais —o bairro e seus entornos— e os revendo para além do componente educador, mas como ambientes de segurança e promoção de saúde. Uma praça, um parque ou um centro comunitário podem tornar-se ambientes de experiências cognitivas de toda ordem. Parcerias entre escola e serviços de saúde devem identificar as potências do território e a construção de estratégias locais para retomada das aulas presenciais de forma segura e sustentável.

Faz-se urgente assegurar a escola como serviço essencial em um pacto social unânime, integrando saúde, cuidado e educação. Que médicos e professores estejam juntos nessa missão! Que a escola seja resistência, um grito de reafirmação de que não será por uma doença, por mais grave que seja, que deixaremos de lado o que somos enquanto seres sociais, e principalmente, o que desejamos para as gerações futuras.

Gisela Wajskop
Socióloga, doutora em educação e diretora-geral da Escola do Bairro

Morris Pimenta e Souza
Médico pediatra, sanitarista, administrador em saúde e pai da Carolina

Roberta Sampaio Ferreira Arruda
Médica pediatra, infectologista e mãe de Francisco, Isabel e Teresa

Felipe Wajskop França
Economista e pai de Maria e Tom

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