Descrição de chapéu
Beatriz Della Costa

É hora da imaginação política

Mais diversidade só virá com mudança nos partidos

Beatriz Della Costa

Cientista social, é cofundadora e diretora do Instituto Update, que lançou neste ano o projeto ‘Eleitas: Mulheres na Política’ (www.eleitas.org.br)

Nunca houve tanta diversidade numa campanha eleitoral. No primeiro turno, enquanto o Tribunal Superior Eleitoral cantava as pedras dos resultados, não me restava qualquer dúvida de que uma efetiva representatividade tinha chegado às urnas.

As boas notícias vinham de todos os lados. Vinte e cinco pessoas trans eleitas, entre elas as recordistas gerais de votos em Belo Horizonte, Aracaju e outras cinco cidades —sem falar de onde saíram as mulheres mais votadas, como em São Paulo. Negras estreando nas Câmaras Municipais de capitais como Cuiabá, Curitiba e Vitória ou, como em Recife e Porto Alegre, despontando em primeiro lugar.

Mas a empolgação durou pouco. Os dados oficiais logo botaram o pé na porta, carregando baldes de água fria. As estatísticas insistiam que pouquíssimo havia mudado: a taxa de mulheres eleitas aumentou apenas 2,5%, e a de pessoas negras e pardas não subiu muito mais que 1%. No segundo turno, as coisas não melhoraram. As duas únicas candidatas foram derrotadas, deixando-nos com apenas uma capital governada por mulher. Vinte anos atrás, tínhamos cinco.

Os números são incontestáveis. Mas não abro mão de usar a minha lupa qualitativa.
Ficou claro, sim, que quem está de volta para reocupar o espaço tomado em 2018 por uma direita extremista é o velho centrão. Só que, se olharmos bem, vamos perceber que existem outros vencedores.

Um zoom apurado deixa evidente uma mudança de pensamento. Está nascendo um projeto de país a partir da representatividade. É uma narrativa que, pela boca dos jovens, vem saindo dos bastidores para, aos pouquinhos, acomodar-se no cenário político.

As novidades são muitas. Dois anos atrás tivemos a primeira deputada trans eleita. Agora, as 25 vereadoras trans escolhidas são mais que o triplo de 2016. Outro fenômeno são os mandatos coletivos, vanguarda que, em geral liderada por mulheres, abre portas para mais gente participar do fazer política a partir de uma única vaga. Essas candidaturas cresceram quase 2.000% em quatro anos.

É uma experiência novíssima que acaba de ter 17 coletivos aprovados nas urnas.
Ainda parece pouco? Outro dia ouvi uma expressão que logo adotei: “paciência histórica”. A história é construída ao longo de décadas, séculos. E a política é um reflexo desse processo. Se não dá para mudar a história de uma hora para outra, também não dá para mudar a política de uma eleição para a outra. O segredo está na paciência e na perseverança. E na imaginação.

A imaginação política é o que faz a roda girar. É ela que constrói realidades e organiza o futuro. E há algum tempo as sementes de imaginação política vêm sendo cultivadas por aqui. Agora, cuidadosamente fertilizadas pela criatividade, pela colaboração e pela busca por novas práticas institucionais, finalmente começaram a brotar.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Update e Datafolha, pouco antes das eleições, destacou que os brasileiros estão dispostos a votar em mulheres e pessoas negras. Ficou nítido também que os eleitores são mais propensos a escolher candidatos apoiados por líderes comunitários do que por políticos consolidados —e confiam mais em iniciativas de renovação do que nos próprios partidos.

Por que, então, as urnas mostraram algo tão diferente? Porque só o movimento da sociedade não vai dar conta de fazer a mudança. Marcos jurídicos são fundamentais para transformar novos paradigmas em políticas públicas. Precisamos de cotas. Precisamos da paridade de gênero instituída nos Três Poderes. Precisamos de fiscalização para que as verbas do financiamento de campanhas cheguem a quem são de direito.

Mas o ponto fundamental é que nem isso vai dar jeito se não houver um comprometimento dos partidos. Sem transformações nas estruturas e nas cúpulas partidárias, vamos continuar avançando a passos muito, muito lentos.

As eleições de 2020 são uma derrota que precisa ser encarada com os olhos da inspiração. Nada é em vão. Deixando a mente voar solta, estamos saindo do buraco. Com os pés no chão, e também com muita paciência e persistência (da sociedade, das instituições, dos partidos), vamos construir o futuro que merecemos —para 2022 e além.

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