Descrição de chapéu

E os R$ 89 mil?

Bolsonaro dissimula ao tratar do caso Queiroz, a ser elucidado com urgência

O ex-assessor parlamentar e policial militar Fabrício José Carlos de Queiroz em foto ao lado de Jair Bolsonaro. A imagem foi publicada no Instagram do ex-auxiliar em 21 de janeiro de 2013
O ex-assessor parlamentar e policial militar Fabrício Queiroz e Jair Bolsonaro, em 2013 - Reprodução/Instragram

Fluidez lógica e domínio da expressão na língua portuguesa não são atributos associados a Jair Bolsonaro, mas deve-se creditar alguma esperteza ao presidente. Não raro ele utiliza suas incapacidades como forma de moldar os fatos aos contornos narrativos que melhor servem a seus interesses.

Tal sagacidade foi demonstrada na semana passada, quando Bolsonaro enfim resolveu falar sobre uma questão que perpassou o ano: por que sua mulher, Michelle, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz.

Em agosto, um repórter que enunciou a pergunta foi ameaçado pelo mandatário, que disse ter vontade de “encher sua boca de porrada”. Ficou por isso.

Na terça-feira passada (15), no ambiente controlado e amigável do programa de José Luiz Datena na Band, Bolsonaro afirmou candidamente que o dinheiro era para ele. “O Queiroz pagava conta minha também”, acrescentou.

O chefe de Estado adensa o nevoeiro em torno do caso. Queiroz é um ex-policial amigo de sua família e foi homem forte do gabinete de deputado estadual do hoje senador Flávio (Republicanos-RJ), primogênito do clã.

Nessa condição empregou parentes de milicianos e, segundo investigações em curso, comandou o esquema das “rachadinhas”, algo que indícios levam a crer ter ocorrido também no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro.

Desde que foi revelado que Queiroz e sua mulher depositaram recursos na conta de Michelle, de 2011 a 2016, a ligação ficou no ar.

“Aqueles cheques do Queiroz, ao longo de dez anos, foram para mim. (...) Divide aí, Datena, R$ 89 mil por dez anos. Dá em torno de R$ 750 por mês. Isso é propina?”, questionou o presidente.

Além de dobrar o prazo dos pagamentos, Bolsonaro convenientemente esquece que dizia ter apenas emprestado R$ 40 mil a Queiroz, sendo os recebimentos amortizações nunca declaradas ao fisco.

Ademais, ninguém o acusou de receber propina. A dúvida é se os valores eram oriundos de “rachadinhas”, algo também ilegal e imoral.

O mandatário confunde e desvia o foco do principal nessa apuração. A suspeita de uso de estrutura oficial de investigação sigilosa do Planalto em favor de Flávio, na figura da Agência Brasileira de Inteligência, mostra que é urgente insistir na elucidação do caso.

A prisão de Queiroz, “um injustiçado” segundo Bolsonaro, teve o condão de esfriar a crise que se tornava institucional em junho.

Foram pausadas as manifestações golpistas explícitas e o choque entre Poderes; entrou em campo o centrão, com as faturas conhecidas.

Alternando dissimulação e ligeireza, o presidente só busca proteger seus filhos, a si e a seu mandato.

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