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Paulo Martins

Hoje não é 1º de janeiro

Seguimos em 2020; há que se acordar de verdade, reativar as boas convicções

Paulo Martins

Professor de letras clássicas e diretor da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo); é autor de 'Imagem e Poder' (Edusp), entre outros

O ano de 2020 foi atípico. As pessoas foram abaladas por dois fatos: a pandemia e o caos. O vírus e o governo. Ambos provocaram em parte considerável da população a sensação de que o nosso tempo não avançava.

A Covid-19 se incumbiu de relativizar o tempo, ampliando-o, e o Planalto impôs sobre ele algo desconfortável, um déjà vu. Os dois alargam ainda mais a marca das horas. Então, o que podemos esperar para o ano que se inicia nesta sexta-feira (1º)? Ou será que o ano não acabou? Seríamos capazes de reverter o tempo ao seu curso normal?

Paulo Martins - Professor livre-docente de letras clássicas e diretor da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo); autor de ‘Imagem e Poder’ (Edusp), entre outros
O professor Paulo Martins, diretor da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo) - Divulgação

Em 2020 tivemos a impressão de que o coronavírus, com suas quase 200 mil vítimas no Brasil, foi capaz de aumentar o dia, brincando com o tempo. Aquele não tinha 24 horas, mas 36. A Terra, então, demoraria 18 meses para realizar sua revolução em torno do Sol. Mas, como Jacques Le Goff propôs, “o calendário é sobretudo um objeto social” —eu emendaria social e psicológico, pelo que o feitiço do tempo torna-se comprovável e não é apenas uma peça de realismo fantástico. Ele, o tempo, não só demarca os limites de Cronos, mas regula o convívio social e a saúde mental. Como o coronavírus os alterou, estamos diante de um novo calendário, muito mais preguiçoso.

No filme “Feitiço do Tempo” (1993), Bill Murray vive um presunçoso meteorologista que, por um passe de mágica, é pego numa cilada do tempo que o faz acordar sempre no mesmo dia. A princípio, tira proveito de sua antevisão das coisas; entretanto, o incômodo de acordar sempre no mesmo dia o transforma numa pessoa melhor. É assim que muitos de nós acordamos no Brasil: primeiramente, com a arrogância de sabermos o que estamos fazendo, sem desconfiar que isso é devido, na verdade, a um feitiço a que fomos submetidos. Assim, há que se acordar de verdade, há que se reativar nossas boas convicções.

Precisamos despertar e reverter esse dilatado calendário. Talvez, se tivermos uma vida segura com a vacina e, daí, o mundo do trabalho retornar ao normal, a educação voltar a ter sua rotina e o lazer vier a ser redivivo, tornaremos ao dia de 24 horas. A restauração social e psicológica do tempo só chegará com a completa imunização da população. Poderemos, a partir desse momento, nos preocupar em reverter esse calendário anômalo, pautado pelo caos, com sua sanha negacionista, com o “cientificismo” de almanaque, com os preconceitos inaceitáveis e com o ódio urdido no submundo do poder.

A doença e o caos nos obrigaram a ver o tempo com os olhos de algo já visto. O governo e a doença, marcados pela intempestividade do presidente e de parcela da população, fizeram o tempo patinar.

Constrói-se uma “verdade absurda” —como, por exemplo, a cloroquina e a negação da vacina, para que em poucos dias essa verdade seja desmentida com desfaçatez. Gasta-se energia para defender o indefensável, e em seguida se volta àquilo a que os razoáveis defendiam. É trágico e afeta-nos. Ao ler os jornais, temos a impressão de estar diante de um livro da mais inusitada ficção.

Enfim, a ciência diz que estaremos quites com a vacina até junho de 2021. Isso nos impôs um atraso de meio ano. Neste dia 1º de janeiro, ainda não estamos em 2021; estamos, sim, em 2020. Mas estou certo de que, lá em 2021, daqui a seis meses, estaremos seguros e saudáveis para que possamos reagir firmemente contra o caos, o preconceito, o negacionismo e em prol da vida, do trabalho, da educação e do lazer. E que, deixando o atraso imposto, percebamos o tempo a prosseguir e a vida a fluir. E tenhamos, aí sim, nossas relações fraternas e humanamente dignas, com esperança redobrada no ano-novo de verdade.

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