Descrição de chapéu
Pedro Luis Barreto Litwinczuk

Onde está o dono da festa?

Natal é um convite ao ajuntamento familiar: se não presencial, no coração

Pedro Luis Barreto Litwinczuk

Conhecido como Pastor Pedrão, é teólogo e pastor da CBRio – Comunidade Batista do Rio

Chegamos ao final de um ano que não vivemos, mas sobrevivemos. Tão surreal é esta estranha e triste realidade que às vezes tenho a impressão de estar vivendo dentro de um filme futurista, de ficção científica.

Como pastor, ver as pessoas virem à igreja com máscaras, sem a possibilidade de notar a reação, o sorriso ou a cara de espanto de cada um é não somente assustador, mas uma cena apocalíptica: igreja sempre foi lugar de comunhão, de abraço, não de ver os fiéis sentados uns longe dos outros. A mente mais brilhante do mundo não conseguiu prever, em sua totalidade, os desdobramentos que os níveis de pânico, medo e colapso financeiro alcançariam com algo tão pequeno e com poder tão avassalador quanto este vírus. Já passamos por vários outros, é verdade, mas nunca desta forma.

Pedro Luis Barreto Litwinczuk (pastor Pedrão) -  Teólogo e pastor da CBRio – Comunidade Batista do Rio
Pedro Luis Barreto Litwinczuk, o Pastor Pedrão da Comunidade Batista do Rio - Divulgação

O povo sendo jogado de um lado para o outro, confusão política entre os Poderes, líderes fazendo da calamidade um palanque político... E, no meio disso tudo, é Natal! Uma festa reconhecida por alegria, risadas, troca acalorada de abraços e presentes. O que será deste Natal? A recomendação é que as famílias não se encontrem. Há filhos que não veem seus pais desde o início da pandemia. Fácil falar “fique em casa, não se reúna com mais de quatro a cinco pessoas”. Mas e o coração, como fica? O que irá predominar? Tristeza ou alegria? Medo ou esperança? O vírus está dominado? As vacinas estão chegando? Pois quando passa a impressão de que “agora vai”, que está “tudo dominado”, sob controle, o coronavírus dribla todo mundo e entra numa mutação que pode até tirar a eficácia das vacinas. E agora, o que fazer?

Vida ou Covid-19? Este Natal será diferente dos demais? No seu verdadeiro sentido ou naquilo que lhe foi tirado? Nascimento de Jesus salvador! Covid-19, pandemia, pandemônio... Quanta confusão. Novo normal? Distanciamento social? Isolamento? Famílias reunidas ou desunidas?

O verdadeiro sentido do Natal há muito foi roubado; o dono da festa foi colocado de lado, e o foco, mudado. Hoje está nos presentes, no cardápio ou na decoração. Dizem, contudo, que o primeiro Natal foi uma festa bem simples. Poucas pessoas. Só o menino, a mãe, o pai, uns pastores e alguns bichos. Pouca comida, poucos presentes. Somente o silêncio e uma noite estrelada. Mas dizem também que foi o mais belo Natal de todos os tempos!

Natal é vida, vida que convida o homem para a união, para o ajuntamento familiar —se não presencial, no coração, em espírito unido ao motivo da festa: Jesus. O vírus cruel quer separar. É proibido abraçar, beijar, confraternizar... Como os idosos suportarão a terrível solidão da falta de contato, de um toque ou um carinho? Não suporto este vírus que mata, enfraquece e muda a vida dos seres humanos que o temem.

Mas este não é tempo de murmuração ou reclamação, mas de profunda reflexão, de abrir os olhos e perceber o verdadeiro sentido da vida. Natal não é só comida e presentes. Natal é amor, Deus é amor, é o momento de sentir o calor humano, a vida que transcende a morte! Vida que afasta o medo e nos fortifica. Vida de verdade, que nos levanta a cada dia e nos dignifica como pessoas.

Querido idoso: se Papai Noel não poderá visitá-lo por que você faz parte do grupo de risco e terá que se isolar neste ano, fique tranquilo. Jesus venceu a morte, ele é o dono da história, e te dá como presente a possibilidade de reescrever a sua. Ame mais sua família, seja feliz com aquilo que Deus lhe deu. Não viva a superficialidade da vida, mas a bela realidade da mesma.

Vamos sair do estágio vermelho de perigo e sentir o vermelho do sangue derramado na cruz, que venceu a morte e nos trouxe a vida! Se este será o seu melhor Natal, não sei dizer —isso dependerá do quanto você aprendeu com o primeiro.

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