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Boneca russa

Sociedade apresenta surpresa para Putin com atos em favor de Alexei Navalni

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Em Moscou, policiais enfrentam manifestantes que defendiam soltura de opositor russo - Maxim Shemetov/Reuters

Em 1939, Winston Churchill definiu a Rússia, então em sua persona avantajada de União Soviética, como uma “charada envolta em um mistério, dentro de um enigma”.

Passadas oito décadas, a frase segue atual não só para o Ocidente, mas mesmo para o regime de Vladimir Putin, vigente desde 1999.

Uma das surpresas a emergir da sociedade civil russa, tal qual a abertura de mais uma boneca dentro de outra “matriochka”, foi a que se testemunhou no sábado (23).

Em mais de cem cidades, milhares foram às ruas demandar a libertação do oposicionista Alexei Navalni, detido ao voltar do tratamento que recebeu na Alemanha após ser envenenado por substância de uso frequente por espiões russos.

O mais notável nos protestos, que resultaram em repressão e mais de 3.700 presos, é o fato de que os russos não identificam Navalni como um salvador da pátria.

Segundo pesquisas, sua ideia de oposição a Putin tem apoio marginal, abaixo de 5%. Intenção de voto a presidente, ainda menos.

Mas sua detenção, baseada no bizarro motivo de que ele violou os termos de sua liberdade condicional ao deixar o país em coma, em agosto, traz um indisfarçável gosto de manobra jurídica e política.

Putin condenou os protestos, avocando a falta de legalidade deles e fazendo paralelos com a invasão do Capitólio por trumpistas ensandecidos no dia 6 de janeiro.

Trata-se de uma falsíssima equivalência, dado que os milhares de russos que foram às ruas no sábado buscavam expressar repúdio a facetas do putinismo.

Por certo, o presidente é popular, com mais de 60% de aprovação de seu mandato. Sua preocupação em manter uma pantomima democrática, ao promover eleições sistemáticas na crença de que a falta de crédito da oposição impedirá o surgimento de alternativas reais, constitui prova de sua argúcia.

Mas a calcificação do sistema político tem um custo, em especial quando o país sofre com a queda dos preços do petróleo que move sua economia e com a gravidade da pandemia da Covid-19.

Tal custo foi mostrado nas ruas congeladas, algumas a -50ºC. As manifestações transmitiram a Putin uma verdade simples: a velha maneira de lidar com as coisas pode ter chegado ao fim.

Não será um processo rápido, nem certeiro. Entretanto está claramente em movimento, esperando a próxima boneca ser desvelada de dentro da sua antecessora.

editoriais@grupofolha.com.br

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