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Sylvio Lazzarini

Comércio aberto também ajuda a salvar vidas

Não há fiscais em número suficiente para barra festas e baladas clandestinas?

Sylvio Lazzarini

Empresário do setor de serviços e vice-presidente do Sindesbar (Sindicato dos Restaurantes e Bares de São Paulo)

O governo do Estado de São Paulo anunciou, em 22 de janeiro, novas medidas de combate ao coronavírus, como a regressão dos municípios para as fases laranja e vermelha. Com isso, nos dois próximos finais de semana, somente serviços essenciais poderão permanecer abertos. A imposição das medidas levou em conta a situação atual e evolução da pandemia nos principais países europeus.

Fica a dúvida sobre quais parâmetros foram utilizados para fundamentar as duras medidas. Sem se levar em conta as diferenças socioeconômicas entre países desenvolvidos e aqueles na faixa do subdesenvolvimento, que são relevantes, há que se reconhecer que, em todos os países europeus analisados, o fechamento completo do comércio durou só oito semanas.

Por aqui foram mais de cem longos dias de completo confinamento. Além disso, enquanto na Europa há auxílio direto aos setores atingidos, com vistas à manutenção de empregos, no Brasil há descaso quase completo, para não mencionar os tropeços do governo federal no combate efetivo à “gripezinha” e o inaceitável atraso no início da vacinação dos grupos de risco.

Em julho passado, ainda no início da flexibilização da quarentena, a média diária de óbitos no estado de São Paulo era de 269 casos e, na capital paulista, 81. Neste mês, até o dia 22, a média foi de 233 e 61, respectivamente (quedas de 14% e 25%). Desde 6 de agosto, já na fase amarela, os restaurantes tiveram permissão de funcionar até as 22h. A tendência de queda nos óbitos se manteve, até ser revertida em dezembro, certamente em razão do processo eleitoral.

O objetivo das medidas é combater as aglomerações causadas pelo desrespeito aos protocolos, como servir bebidas em pé ou promover festas e baladas clandestinas. Ora, essa é uma questão de polícia. Não há fiscais em número suficiente? Então que se utilize a Lei Delegada e que se convoquem policiais em folga. O que não é justo é manter fechados shoppings centers e restaurantes cumpridores dos protocolos de saúde.

O fechamento do comércio nos finais de semana será um golpe duro, talvez fatal, no setor varejista e de serviços. A demanda está comprometida. Não há mais o auxílio emergencial e o desemprego, em nível recorde, tende a aumentar. Além disso, os estabelecimentos enfrentam enormes dificuldades financeiras e não têm mais a possibilidade de redução de jornadas de trabalho. No ano passado, 150 mil foram demitidos. Sem recuperação da atividade, o número tende a aumentar significativamente neste ano.

Os indicadores demonstram que teremos um primeiro trimestre muito difícil. A retomada só virá com o restabelecimento do nível de confiança, que depende da vacinação de toda a população na faixa de risco. Mas, lamentavelmente, a vacinação, em vez de ser objeto da diplomacia —pois depende de países produtores do imunizante e de sua matéria prima— tem sido pauta para demagogia.

Acredito que a evolução da pandemia nos países asiáticos poderia servir de parâmetro para a tomada de decisões no Brasil. O Japão, por exemplo, tem 14 vezes mais habitantes por km2 que o Brasil, além de ter, também, uma população de idosos muito maior. Segundo o site alemão www.statista.com, o número de óbitos no Japão é de 39 por milhão de habitantes (em comparação a 1.035 no Brasil). Detalhe: nenhum comércio foi fechado lá. Nenhum restaurante ou shopping center. Zero quarentena. Certamente, a liderança de um governo responsável ajudou a controlar a pandemia. O exemplo tem que vir de cima.

Faço coro com os que gritam “Vacina já”! Para salvar vidas não temos que matar o comércio. O governo precisa se debruçar sobre medidas para a recuperação da atividade econômica e, assim, garantir empregos, a volta às aulas e o desenvolvimento com justiça social.

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