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Marco Feliciano

Eu sou você amanhã

Bolsonaro acerta ao liderar ampla coalizão de centro-direita no Congresso

Marco Feliciano

Deputado federal (Republicanos-SP), vice-líder do governo no Congresso, presidente da Comissão de Desenvolvimento Urbano e pastor evangélico

Começo este artigo com algumas considerações. A primeira delas é sociológica. Sendo o maior objetivo de qualquer governo a estabilidade —razão da própria invenção do Estado—, bem certo é que a baderna só interessa à oposição.

A segunda meditação é filosófica: o valor do equilíbrio. Já dizia Aristóteles que a virtude está no centro. E o apóstolo Paulo, em sua segunda epístola a Timóteo, afirma àquele que estava ensinando a ser um dos governantes da igreja: “Seja moderado em tudo”.

A terceira premissa é jurídico-política: a democracia prescrita pela nossa Carta Magna é o regime das maiorias, da tripartição dos Poderes, dos freios e contrapesos, do “rule of law”. Dito isso, negociar para formar a maioria que não se tem é um fato que se impõe a um governo que pretenda implementar seu programa.

Por fim, o quarto postulado é de natureza histórica: a trajetória dos grandes líderes mundiais ensina que a forma de conquista do poder é diferente de como se o exercita. Explico. É natural que a postura do candidato em uma eleição seja incisiva e, dentro do contexto da administração, o já então governante seja mais tolerante. Principalmente no caso brasileiro, onde o presidente da República é, simultaneamente, o chefe do governo da maioria e o chefe de Estado de todos. É a “realpolitik”, que privilegia o pragmatismo em detrimento das exacerbações ideológicas.

Richard Nixon foi à China. Ronald Reagan financiou extremistas muçulmanos contra a União Soviética. João Paulo 2º, com o apoio de Margaret Thatcher, se uniu ao sindicalista Lech Walesa para rasgar a cortina de ferro. Se esses líderes conservadores seguissem a “cartilha” à risca, a Ásia e metade da Europa ainda estariam sob as garras do comunismo e o “império do mal” (como Reagan chamava a União Soviética) estaria de pé.

De fato, ideologias são excelentes para formar maiorias circunstanciais em eleições, construir plataformas de governo e dar um norte ao governante. Mas, muitas vezes, podem não ser as melhores conselheiras na hora de administrar o Estado e de executar tais programas.

Enfim, as evidências aqui referidas explicam a sensata atitude do presidente Jair Bolsonaro em liderar a formação de uma ampla coalização congressual de centro-direita, a fim de concretizar o programa liberal-conservador que o povo elegeu em 2018. E o tempo urge, pois nos últimos dez anos a única coisa que este país não teve foi estabilidade, essencial para o desenvolvimento.

Foi a década da montanha-russa: a roubalheira lulopetista; a administração ruinosa de Dilma Rousseff (PT), com queda de PIB acumulada maior do que na pandemia; e um procurador-geral da República com ares de Nero, que fez o Congresso votar duas denúncias contra um presidente em menos de 90 dias. E, se isso tudo fosse pouco, quando retomávamos o rumo do crescimento após realizarmos a maior reforma previdenciária do mundo (parceria do governo Bolsonaro com o Parlamento), veio o coronavírus.

Daí a responsabilidade do nosso governo de liderar as reformas estruturantes: administrativa, tributária, federativa, desvinculação das receitas, privatizações, autonomia do Banco Central etc. Em suma, destravar a agenda das reformas encapsulada pela ambição desmedida de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e de seu grupo —que, para se manterem no poder, fizeram acordos com uma oposição que é vanguarda do atraso e manifestamente contrária às reformas.

Bem sabemos que não existe almoço grátis. A fatura da esquerda vai chegar. Por isso, derrotar a candidatura inerentemente antirreformista de Baleia Rossi (MDB-SP) é uma prioridade nacional, pois só assim avançaremos nas reformas e impediremos o avanço da agenda de estatização e a perversão dos costumes exigida pela esquerda.

É por isso que relevo quando meus seguidores nas redes sociais acusam o governo de perder sua identidade. Tenho a ética da responsabilidade. Sei que estamos fazendo política para colocar o projeto em pé. E não temos o direito de errar, pois a volta da esquerda é sempre uma ameaça.

Vejam o exemplo da Argentina kirchnerista, que tomou o caminho estatizante da Venezuela e acaba de aprovar a legalização do aborto. Lembram-se do legendário “efeito Orloff”? Não quero nenhum liberal ou conservador argentino falando para mim como uma alma penada: “Eu sou você amanhã”.

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