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Inferno pantaneiro

Relatório indica que parte expressiva das queimadas no bioma foi criminosa

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Árvore carbonizada após os incêndios no Pantanal, na Reserva Particular do Patrimônio Natural da Serra do Amolar (MS) - João Farkas/Divulgação

Não pesasse sobre 2020 a cifra de 195 mil brasileiros mortos pela Covid-19, o ano poderia bem terminar lembrado pela hecatombe sobre o Pantanal. Cerca de um terço de sua superfície ardeu em chamas —uma área de 50 mil km², quase do tamanho do Rio Grande do Norte.

No estado de Mato Grosso, onde se localiza a terça parte da planície inundável, a parcela incendiada alcançou nível ainda mais alarmante, de 40%. Foram 21,5 mil km², mais que um Sergipe inteiro.

O Pantanal, com 150 mil km² de extensão no Brasil, é o menor bioma do país, porém se reveste de grande importância pela biodiversidade que concentra e que atrai turistas do mundo todo. Mais de 600 espécies de aves e mil de borboletas podem ser avistadas por ali.

Sua característica ecológica mais marcante está no pulso de enchentes a partir de fevereiro, que alaga até 137 mil km² de terras, mais de 90% da região, ao avançar lentamente do norte para sua porção sul-matogrossense, onde o pico acontece no meio do ano.

Em 2020, estiagem sem precedentes castigou o Pantanal, favorecendo a propagação de incêndios criminosos. Uma forte indicação de que as queimadas surgiam de maneira intencional e delituosa aparece em relatório do Instituto Centro de Vida (ICV), conforme foi noticiado pela Folha.

Segundo o documento, 46% da área incendiada abrange propriedades registradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), e outros 7%, em assentamentos rurais.

Em outras palavras, terras com ocupantes, ou seja, pessoas que podem ser responsabilizadas por incendiar vegetação, sem licença ambiental, para limpar com fogo áreas desmatadas. Perder controle da queima, em meio a seca sabidamente tão grave, não livra ninguém de responder pela imprudência.

Poucos proprietários terão obtido permissão legal para recorrer à prática. As maiores extensões de incêndios ocorreram entre junho e outubro, quando estavam em pleno vigor normas estaduais e federais de proibição da queima —o governo Jair Bolsonaro editou a sua em 16 de julho.

Conclusão a extrair da tragédia pantaneira de 2020: o poder público parece totalmente incapaz de implementar medidas de proteção ambiental, mesmo quando o desastre lhe bate à porta e contribui para arruinar —além de patrimônio incalculável em flora e fauna— o já mais que chamuscado prestígio internacional do país.

editoriais@grupofolha.com.br

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