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David Miranda

Não é fácil apoiar Baleia Rossi, mas é o correto

Dar o controle da Câmara ao emedebista é intragável; a Bolsonaro, é suicídio

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David Miranda

Deputado federal pelo PSOL-RJ

Muita gente vem dizendo que deveria ser uma decisão fácil apoiar o candidato de Rodrigo Maia (DEM-Rj), Baleia Rossi (MDB-SP), para sucedê-lo como presidente da Câmara, uma vez que a alternativa é o candidato de Jair Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL). Aqueles que defendem isso estão errados. Não é uma decisão fácil apoiar Rossi. Mas é a decisão certa.

Esse voto terá um gosto amargo. Como presidente do MDB, Rossi ocupa posição proeminente no que deve ser um dos partidos políticos mais corruptos não só no Brasil como na América Latina. Seus correligionários são Eduardo Cunha, Michel Temer e Sérgio Cabral. Rossi desempenhou um papel de liderança no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, e ajudou a levar Temer, um criminoso, à Presidência da República.

Mais ainda, Rossi teve papel central na blindagem de Temer quando este era presidente. E tal como o seu mentor, Rodrigo Maia, o emedebista tem atuado como um obstáculo aos numerosos processos de impeachment contra Bolsonaro, incluindo o apresentado em 2019 por vários dos meus colegas do PSOL, impedindo que os processos fossem votados.

Para além dessa história vergonhosa, a política de Rossi, tal como a de seu mentor, Rodrigo Maia, constitui nada menos do que um ataque aos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros em benefício de interesses de uma pequena elite multimilionária. Praticamente todas as propostas destinadas a erodir a rede de segurança social e o nível de vida mínimo dos trabalhadores e aposentados são apoiadas por Rossi.

É difícil, portanto, imaginar uma situação que possa justificar meu voto em um candidato como Rossi, ainda mais para ocupar um cargo tão poderoso como o de presidente da Câmara. Mas, por mais difícil que seja aceitar, essa é a situação que se apresenta em nosso país. A única alternativa viável a Rossi é Arthur Lira. E Arthur Lira é Bolsonaro.

Se fosse apenas Lira, seria legítimo argumentar que a diferença entre ele e Rossi é pequena. Afinal, ambos apoiaram o impeachment de Dilma. O PP, como o PMDB, tem estado no centro de todos os grandes escândalos de corrupção no país. A sigla foi um aliado chave de Eduardo Cunha. Também obstruiu o impeachment de Temer e é contra impedir Bolsonaro. Além disso, Lira é acusado, com indícios, de corrupção e violência doméstica.

Mas Lira não é o candidato do PP, mas de Bolsonaro. Em troca de uma montanha de favores da "velha política" dada ao centrão pelo Planalto, Lira se ofereceu para ser o instrumento que o governo Bolsonaro pretende utilizar não apenas para implementar sua agenda política reacionária, mas para atacar os fundamentos da democracia brasileira.

Apesar das muitas falhas ideológicas e políticas de Maia, ele preservou a mecânica da democracia brasileira, tornando-se assim um importante entrave às aspirações antidemocráticas mais extremistas de Bolsonaro. A política econômica de Maia é desastrosa e cruel, mas ao menos ele parece acreditar na política e no primado do voto democrático.

Maia usou sua plataforma para denunciar as tentativas de Bolsonaro de interferir nas investigações policiais de sua família. Ele tem sido um oponente do negacionismo e da ignorância do governo em relação à Covid-19, que vem exterminando nossa população.

Maia levantou a sua voz quando apoiadores de Bolsonaro e Sergio Moro tentaram abusar do sistema de Justiça para punir e criminalizar os seus críticos. Ele alertou para os perigos de liberar armas no país, especialmente para os apoiadores de Bolsonaro. E foi eloquente quando os aliados de Bolsonaro no Ministério Público Federal tentaram processar meu marido, Glenn Greenwald, pelo "crime" de praticar jornalismo —e quando Bolsonaro intimidou outros jornalistas e incitou sua claque contra eles.

Temos de levar a sério —muito a sério— a realidade de que Bolsonaro é um fascista, um opositor da democracia. E se estamos dispostos a dizer que Bolsonaro é um fascista, temos de agir como se acreditássemos nisso. Acabamos de ver o que aconteceu nos Estados Unidos depois que Donald Trump incitou a violência, com sucesso, ao mentir para o público sobre a fraude eleitoral. É preciso lembrar que Bolsonaro já fez o mesmo: alegou, do leito do hospital em 2018, que só a fraude eleitoral poderia fazê-lo perder a eleição, e depois voltou a afirmar que foi vítima de fraude quando não ganhou no primeiro turno (declarando, inclusive, que tinha provas; mas até hoje não as apresentou).

Tudo o que Bolsonaro está planejando agora se destina a garantir que a força e a violência sejam usadas se ele não ganhar em 2022. Ele quer liberar ainda mais armas para o público, incluindo fuzis. Quer politizar os militares para assegurar o emprego das Forças Armadas e liberar a polícia para ser ainda mais violenta. A sua visão política se resume à violência, à força, à intimidação e ao golpismo descarado.

Dar a Rossi o controle da Câmara é politicamente intragável. Mas entregá-lo a Bolsonaro é suicida. Nenhuma das nossas diferenças importa se não tivermos nas instituições democráticas o fórum para resolvê-las politicamente.

Reconhecer a crise na democracia representada por Bolsonaro não significa sacrificar nossos ideais em nome da unidade. Em 2020, me apresentei como candidato a prefeito do Rio de Janeiro porque acreditava que, mesmo com a ameaça à democracia, era vital permitir que nossos cidadãos e membros dos partidos escolhessem os seus líderes.

Quando ficou claro que Marcelo Freixo seria o candidato, foi trágico ver a esquerda se recusar a unir-se em torno de uma candidatura única no Rio e em São Paulo —razão pela qual Freixo decidiu não se candidatar. Nossa primeira prioridade deve ser a união em defesa da democracia, sobre a qual travaremos nossa batalha por nossos valores políticos e construiremos nossa luta por uma sociedade mais igualitária, mais justa e mais solidária.

Alguns argumentam, incluindo os meus colegas na bancada do PSOL, que podemos apoiar Rossi no segundo turno, mas que precisamos antes marcar posição em defesa do que acreditamos, apresentando um candidato próprio no primeiro turno da eleição para a presidência da Câmara. Eu compreendo esse argumento, mas, respeitosa e fraternalmente, discordo.

Dado que o voto nesta eleição é secreto, acredito que muitos deputados de alguns dos partidos que apoiam Rossi podem desrespeitar a orientação partidária e votar em Lira, criando o risco real de que o candidato de Bolsonaro ganhe no primeiro turno. É vital, além disso, que todos os partidos, incluindo o PSOL, mostrem ao público que a nossa primeira prioridade é a preservação da democracia brasileira. Essa crença está na base de nossos valores: a democracia como valor universal.

É possível que, há quatro anos, quando fui eleito pela primeira vez para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, eu visse essa questão de forma diferente, concordando com os militantes e colegas do PSOL que pensam que não podemos apoiar um candidato como Rossi.

É possível que, depois de quatro anos de trabalho na Câmara do Rio, eu veja a política de forma mais pragmática e estratégica: que só podemos melhorar a vida daqueles que representamos se conseguirmos resultados positivos para eles. Sei também dos perigos de adotar uma postura por demais pragmática e conciliadora. Navegar esses limites é um desafio diário e fonte de muita discussão e reflexão junto com meus companheiros do PSOL e dos demais partidos de esquerda.

Estou convicto, apesar dos problemas que delineei, de que é hora de ser estratégico e pragmático. Não se pode negligenciar a ameaça à democracia representada por Jair Bolsonaro. É difícil, mas não posso, em boa consciência, apoiar nada que reforce os seus ataques à nossa democracia. Se isso significa votar em Rossi, essa me parece a melhor opção.

Acima de tudo, é necessário ter uma tática de unidade democrática contra Bolsonaro: pela vacina, por oxigênio, contra o fechamento do regime e pelo impeachment.

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