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João Paulo Andrade

O pouco provável

Minhas marcas físicas não servem de argumento para o movimento antivacina

João Paulo Andrade

Físico e Mestre em engenharia mecânica pela UFMG

Aos seis meses de idade, fui vítima do vírus da poliomielite. Até onde consta em meu cartão de vacina, recebi duas doses. As dificuldades econômicas vividas à época, a desconfiança do diagnóstico inusual para o ano de 1984 em uma capital brasileira e a necessidade de superação das sequelas físicas deixadas colaboraram para que pouco se investigasse sobre o que de fato aconteceu.

Somente aos 19 anos conheci uma pessoa nascida na década de 1980 que compartilhava comigo as consequências do vírus já inofensivo diante da vacina. Quando inteiradas da causa da minha deficiência física, a resposta das pessoas é o espanto: “Mas você não foi vacinado?”. Os mais jovens, em geral, já nem sabem o que é poliomielite. Os benefícios da vacina se tornaram silenciosos, e a ameaça virótica se transformou em alguma história fictícia.

Sempre convivi com três hipóteses para o meu caso. A doença se desenvolveu ou porque a vacina falhou (o conteúdo estava inerte ou a aplicação não foi adequada) ou porque eu fui infectado antes de ser vacinado ou porque o conteúdo virótico da vacina não estava devidamente atenuado. De uma forma ou de outra, meu caso foi um daqueles eventos que existem para mostrar que o pouco provável não é apenas probabilidade estatística.

Assim, no debate antivacina, que ganha força com a ideologização do imunizante contra a Covid-19 no mundo, minhas marcas físicas poderiam servir de elementos para compor o argumento daqueles que só enxergam aspectos negativos nas vacinas. Afinal, de que adiantou eu me vacinar se a poliomielite e suas sequelas não foram evitadas?

Confesso que não foi fácil passar boa parte da minha infância entre sessões de fisioterapia, consultórios médicos e oficinas ortopédicas. Ser o “diferente”, não poder correr, jogar bola, andar de bicicleta e, em alguns momentos, simplesmente não poder usar o tênis da moda, causou muitos sofrimentos. Aprender a reagir com naturalidade diante do desconcerto das pessoas com os dois quilos de aço e plástico que preciso arrastar para andar foi um grande desafio. Atravessar da adolescência para a vida adulta com a dúvida adicional de quão limitante poderia ser a deficiência no desempenho da vida profissional, amorosa e familiar foi um processo muito angustiante.

Apesar disso, não consigo ser egoísta suficiente para desacreditar do benefício da vacina. Se eu não pude usufruir disso, meus amigos, familiares e outros bilhões de seres humanos o fizeram. Sou bastante cético com leituras religiosas. De forma bastante racional, não há como sustentar que a ocorrência do evento pouco provável é capaz de anular os benefícios obtidos em relação a todos os outros eventos que se tornaram improváveis, no caso, pela ação da vacina.

É nessa perspectiva que os argumentos antivacina se enfraquecem. O resultado que interessa não é o individual, mas o coletivo. Ainda que não consigam garantir que a totalidade dos indivíduos estejam protegidos contra certo patógeno, as vacinas conseguem garantir, ao longo do tempo, que esses microrganismos nocivos circulem com menor intensidade e encontrem menos organismos aptos a serem afetados ou destruídos.

Utilizar as consequências de uma doença para um indivíduo como argumento contra uma medida que beneficia a coletividade é desonestidade com todas as partes. É preciso muita lucidez para não cair na falácia de que se a vacina falhou para um pode falhar para todos. Para quem acredita nisso, melhor não ter pisado neste mundo. A materialidade do evento pouco provável é inerente ao viver. Assim, o que importa é que a vida possa prosseguir.

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