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O tamanho e a ordem de grandeza da ideologia

Comparar Brasil e Israel só é valido quando há conveniência para o governo Bolsonaro

Daniel Douek, Michel Gherman e Rafael Kruchin

Membros do Instituto Brasil-Israel

O plano de governo do candidato Jair Bolsonaro mencionava o Estado de Israel cinco vezes. Na primeira delas, em item intitulado “Contra a esquerda: números e lógica”, afirmava que o país tinha apenas 110 homicídios por armas de fogo por ano, em contraposição aos 60 mil no caso brasileiro. Israel havia sido classificado pelos autores do documento como um dos lugares nos quais “existe uma arma de fogo na maioria dos lares”, e tentava-se convencer o eleitor sobre uma suposta “correlação inversa entre armas nos lares e homicídios”.

Além do equívoco da informação —segundo dados coletados pela organização Gun Policy, apenas 2,13% da população israelense é proprietária de armas de fogo—, o texto não fazia nenhuma relativização em relação às diferentes “realidades políticas, econômicas e sociais” ou à disparidade de “tamanho e ordem de grandeza” entre os dois países. E ainda citava Israel como exemplo para o Brasil nas áreas de inovação, ciência, tecnologia e agricultura.

Por isso, foi com surpresa que tomamos conhecimento do artigo "O tamanho e a ordem de grandeza de cada país" (11.jan.21), do secretário de Comunicação Social do Ministério das Comunicações, Fábio Wajngarten, afirmando que “a cultura de um povo, sua localização geográfica, seus hábitos e costumes e seu processo civilizatório são incomparáveis —ainda mais entre duas nações como Brasil e Israel, com formação tão distintas de seu Estado nacional”. Wajngarten buscava justificar a inação do governo brasileiro em relação às políticas de vacinação contra a Covid-19, num momento em que comparações com a campanha de imunização levada a cabo pelo governo israelense tornaram-se corriqueiras.

Na condição de colaboradores do Instituto Brasil-Israel, estabelecer conexões entre os dois países é parte de nosso cotidiano. Ao contrário do que o secretário afirma, a sociologia, a antropologia e a ciência política nos ensinam que a comparação é intrínseca à formulação de políticas públicas, principalmente aquelas que têm como referência os Estados nacionais, sejam eles semelhantes ou díspares. Aliás, é bom lembrar que mesmo levando-se em conta países mais parecidos, como EUA e México, o Brasil mantém-se atrás no que diz respeito à imunização de sua população. A questão, assim, não é a dimensão demográfica ou territorial, e, sim, ideológica.

Isso fica evidente na própria postura dos chefes de governo. Enquanto aqui o presidente sugere que a vacina pode provocar mudanças de sexo e até de espécie, lá o primeiro-ministro foi o primeiro a se vacinar e o fez com transmissão ao vivo pela televisão, convidando os cidadãos a seguirem o exemplo. Posturas que coloquem a saúde das pessoas acima do posicionamento político-partidário independem do tamanho da população e da área na qual ela se encontra.

O que estamos vendo mostra a problemática do discurso bolsonarista em relação a Israel. Já sabíamos que Bolsonaro e seus seguidores falavam de um Israel “imaginário”, bem distinto do país que acumula avanços consideráveis em pautas progressistas, tais como os direitos à população LGBT, aborto e até a descriminalização do uso de algumas drogas —questões varridas para debaixo do tapete. Mas agora, quando os olhos do mundo se voltam para a campanha de vacinação liderada por aquele que já foi considerado um “irmão”, restou dizer que a comparação entre os dois países é impossível.

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