A soberania dos fatos

Em seu centenário, a Folha reafirma seu compromisso com ouvir o outro lado, não importa qual seja ele

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Ilustração da fachada da Folha, na alameda Barão de Limeira, 425
Ilustração da fachada da Folha, na alameda Barão de Limeira, 425 - Catarina Pignato

A Folha, ao completar 100 anos, reafirma seu compromisso com a vertente empresarial e profissional da imprensa, dedicada a transmitir a notícia bem apurada com a maior eficiência possível, distanciada das paixões partidárias, crítica, autocrítica e pluralista.

Não estivesse convicto da solidez do terreno em que caminha, beneficiado pelo longo convívio com trepidações episódicas da política, o jornal poderia ceder à tentação de descambar para a oposição sistemática a um presidente como o atual.

Não o fará porque acredita que o mandatário, como os que o antecederam e o sucederão, está limitado pela vigorosa, ainda que jovem, democracia brasileira.

A luz do sol, na feliz alegoria do ministro da Suprema Corte dos EUA Louis Brandeis (1856-1941), é o melhor dos desinfetantes. Expor em praça pública contradições, desmandos e deficiências dos governantes pode ajudar autoridades e cidadãos a formar convicções nas ocasiões em que são chamados a decidir.

A imprensa como praticada nesta empresa jamais vai se colocar no lugar de eleitores, juízes e legisladores. Ela não trata o seu público como pessoas infantilizadas as quais deva conduzir nem tem a pretensão do sacerdote, de revelar as verdades absolutas.

O jornalismo atua num mundo dinâmico, complexo e opaco, onde vários fenômenos ocorrem simultaneamente, mas não se deixam enxergar ao mesmo tempo. Para publicar depressa o primeiro esboço da História, o profissional da imprensa aborda documentos e versões raramente definitivos. Há vieses, interesses e incompletudes com que lidar.

Daí o zelo da Folha pela verificabilidade do que noticia, pela correção explícita dos seus erros e pela exposição diligente dos argumentos das pessoas afetadas pelo seu noticiário. O contraditório, ou outro lado, é empregado como técnica para aproximar o leitor da objetividade dos fatos, e não como subterfúgio para escapar da investigação.

A orientação para as seções de opinião se sustenta sobre o mesmo alicerce iluminista. Nos seus editoriais, a Folha não abre mão da democracia e defende as liberdades civis em latitude máxima. Que a pessoa adote o estilo de vida que escolher sem temor de repressão; que não seja processada por opiniões, abortar ou usar drogas; que cessem discriminações por gênero, cor ou outra condição individual.

A liberdade de empreender decorre desse rol de valores. Os editoriais da Folha enfatizam a função reguladora do setor público, para catalisar a concorrência e fiscalizar atividades especiais, mas desconfiam da sua efetividade como gestor de empresas. Que se transforme num Estado de Bem-Estar Social moderno, eficiente e capaz, voltado a equalizar as oportunidades assegurando boa educação, saúde e seguridade.

Os editoriais constituem só uma fração do amplo cardápio de pontos de vista que o jornal oferece aos leitores. Colunistas e articulistas de centro, esquerda e direita —e tantos outros cuja inserção não cabe na linha demarcatória da ideologia— disputam a atenção do público, ele também heterogêneo, com argumentações que se chocam entre si e com as da Folha.

Essa cultura pluralista reflete a fortaleza relativa das instituições democráticas e econômicas, bem como a pujança e a versatilidade da sua opinião pública. Conota um projeto editorial ciente das zonas cinzentas da realidade e avesso a maniqueísmos.

Ideias ruins existem, e não é por decisão mágica de um comitê de editores que desaparecerão. Este jornal prefere expô-las na ágora dos debates francos, para que feneçam pelas próprias debilidades. Cresce no Ocidente uma abordagem oposta, de que certos atores ou opiniões não deveriam aparecer nos veículos de imprensa ou nas redes sociais.

Tal ofensiva equivale a desejo de censura, e o fato de seus defensores acreditarem agir em nome de um bem maior não muda sua essência. Bem e mal são assunto das religiões, não da imprensa.

O jornalismo profissional melhora o mundo apenas quando cumpre a sua missão de bem informar e promover um amplo e muitas vezes incômodo debate nacional. Quem o entende vocacionado para transformar a realidade está fazendo o caminho de volta para a militância política e a demagogia, marca dos velhos tempos da imprensa engajada.

editoriais@grupofolha.com.br

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