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Denise Garrett

A volta às aulas e as novas variantes do vírus

Escolas estão reabrindo, mas reavaliação no curto prazo poderá ser necessária

Denise Garrett

Médica epidemiologista, é vice-presidente do Programa de Epidemiologia Aplicada do Instituto Sabin de Vacinas, em Washington, e ex-integrante do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA

No esforço de controlarmos a pandemia do novo coronavírus, uma das decisões mais difíceis e controversas foi a de fechar escolas. Como mãe e médica epidemiologista, confesso que em vários momentos me encontrei dividida entre os argumentos dos dois lados do debate.

Pagamos um alto custo por fechar escolas —não somente em termos do dano à educação, mas também o efeito prejudicial, no longo prazo, à saúde social e emocional do aluno. Isso sem falar do potencial dessas crianças enfrentarem desvantagens no mercado de trabalho e perdas de renda quando adultas. E o preço pago por termos crianças marginalizadas é ainda mais alto.

Por outro lado, no meio de uma pandemia em proporção jamais vista, também não podíamos ignorar o risco de manter nossas crianças em salas de aula —risco este não somente para os alunos, mas também para familiares, professores, funcionários e toda a comunidade escolar. Além disso, vários estudos mostraram que fechar escolas colaborava com o achatamento da curva.

Com o maior entendimento da transmissão do Sars-CoV-2, aprendemos que, em relação aos adultos, crianças menores de 18 anos são menos suscetíveis à infecção e menos propensas a apresentar quadro grave e a transmitir a doença, tornando ainda mais difícil justificar o fechamento das escolas.

Com essas evidências, grande parte das minhas dúvidas quanto ao risco da reabertura das escolas dissipou-se, e tornei-me uma defensora da volta às aulas presenciais —desde que as condições mínimas de segurança sejam implementadas.

A ciência, não a política, deve conduzir as decisões sobre como e quando reabrir escolas. Os protocolos devem ser orientados por cinco princípios fundamentais: 1 - baixa taxa de transmissão na comunidade —a primeira e principal consideração para reabrir escolas. Se a transmissão na comunidade for alta, assim será dentro dos colégios. Para abri-los em segurança, temos que baixar as nossas taxas de transmissão; 2 - programas de testagem regulares para a detecção precoce de um caso e isolamento dos indivíduos infectados antes que qualquer transmissão ocorra na sala de aula; 3 - boa ventilação nas salas de aula; 4 - uso correto e consistente de máscara; e 5 - distanciamento social, higiene das mãos e etiqueta respiratória.

Vacinação de professores e funcionários das escolas também é recomendado. Os educadores estão fazendo enormes sacrifícios para ensinar nossas crianças, e precisamos zelar pela segurança deles.

Com protocolos bem definidos e todas as condições de segurança atendidas, o debate da reabertura de instituições de ensino estava praticamente resolvido. Até que o surgimento de novas variantes de rápida disseminação nos levou novamente a questionar essa decisão.

As novas variantes emergentes em todo o mundo são muito mais transmissíveis do que o vírus original, com disseminação cerca de 40% a até 90% maior. Ainda não está claro como a nova variante brasileira vai impactar a dinâmica da transmissão entre crianças. Mas, com o grande aumento da transmissão comunitária causado pelas variantes e a falta de disponibilidade de vacinas, um aumento de transmissão nas escolas será inevitável.

Temos que estar preparados para agir e proteger nossas crianças. Fechar as escolas deve ser considerado somente após a implementação de outras medidas para conter a propagação da doença.

Diferentemente do que fizemos anteriormente, quando a escolha foi sacrificar a educação de nossos filhos para priorizar academias e bares, escolas devem ser a última coisa a fechar. A solução é avançar com a vacinação o mais rápido possível e adotar as medidas já conhecidas e eficazes para diminuir a transmissão do novo coronavírus —fechar cinemas, academias, bares e os outros serviços não essenciais.

Se ainda assim a taxa de transmissão se manter incontrolável, é importante sermos realistas e flexíveis. Com a nova variante, o Reino Unido e outros países europeus tiveram que mudar o curso e fechar as escolas novamente.

Os prejuízos de interromper as aulas mais uma vez não devem nos cegar para os perigos de arriscarmos a vida de nossas crianças.

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