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Christian Schwartz

Entre despedidas, trouxe à Folha minhas ideias

A cada colaboração se renova o sentimento de que participo de debate diverso e fundamental

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Christian Schwartz

Doutor em história social (USP/Cambridge), jornalista e tradutor

Na altura de 2018, já estava conformado a ter que ler a Folha em telas de dispositivos eletrônicos, dada a dificuldade de conseguir um exemplar impresso do jornal nas paragens distantes por onde andara nos anos anteriores. Mas meu padrinho de batismo —um irmão da minha mãe que nunca se casou e viveu seus últimos meses na casa de outra irmã também solteira, minha madrinha— seguia firme no hábito de comprar o jornal na banca. Primeiros dias do ano, precisei visitá-lo no leito de morte.

Antes de seguir para o hospital, porém, passei na casa da madrinha e ali me deparei com a pilha de jornais acumulada por aqueles dias, intocada porque o padrinho tinha sido internado pela última vez. Sua morte ocorreria pouco depois da despedida de um ícone da Folha e das letras nacionais, Carlos Heitor Cony. Abri ao acaso uma das edições –a página 2, desde sempre a minha preferida– e vi o espaço do Cony em branco, homenagem que o jornal lhe prestara assim que, morto o cronista, emudecera de vez aquela voz inesquecível.

Guardei a página tirada da pilha do padrinho, exemplares que nunca seriam lidos, como última recordação também da figura da infância que me despertou a curiosidade por aqueles cadernos dobrados, enormes, impressos em letrinhas.

Tinha passado o ano anterior, 2017, como pesquisador visitante em Cambridge, na Inglaterra. Um amigo no jornal intermediara uma possível colaboração minha de lá para a seção "Diário", então publicada pela Ilustríssima —um giro cultural por cidades do mundo onde a Folha pudesse contar com correspondentes. Emplaquei meia dúzia de colunas naquele ano, sem me limitar à cidade universitária paradisíaca na qual me estabelecera e aproveitando a estadia para mandar impressões também de Londres e de dois festivais literários no interior do país, além de outros artigos de fundo para o mesmo caderno.

Então voltei ao Brasil para aquele início fatídico de 2018. Contava seguir escrevendo no jornal. Jamais, porém, que um interlocutor me ligasse da parte de Otavio Frias Filho. Era março. A proposta (saudada por mim, ainda lembro, com um “uau!”): colaborar, talvez regularmente, com a página de editoriais —aquela mesma página 2, desde sempre minha preferida. Por razões diversas, a ideia não vingou, mas o convite foi dessas honras que se guardam.

Otavio Frias Filho morreu precocemente em agosto de 2018. Na semana de sua morte, numa visita programada bem antes e completamente desavisada do evento devastador com o qual coincidiria, pisei pela primeira vez na Redação da Folha. (Para ser absolutamente preciso, como gosta este jornal, ali estivera uma outra vez, mas apenas como estudante de jornalismo, nos anos 1990, num tour institucional do qual levei como souvenir a Ilustrada do dia seguinte, quentinha da rotativa, a tinta soltando nos dedos.)

Não cheguei, portanto, a conhecer Otavio. Apenas uma vez o vi pessoalmente: recém-chegado a São Paulo para começar a carreira de jornalista, assisti a uma sessão de "Cidadão Kane" seguida de mesa-redonda na qual era ele o debatedor principal. Deve ter sido em 1998. Ficou na memória uma conta prosaica: Otavio abriu sua fala dizendo que, aos 41 anos (!), calculava ter acabado de ver o filme pela 42a vez, algo assim —ou seja, contava mais sessões do clássico de Orson Welles do que anos de vida.

As páginas do jornal permaneceram abertas para mim, e nesses meses e anos seguintes à minha estreia tardia desde Cambridge (tinha mais ou menos a mesma idade do Otavio daquela sessão de "Kane") venho publicando em espaços que às vezes são verdadeiros latifúndios de tão generosos, especialmente na Ilustríssima.

A cada nova colaboração se renova o sentimento vivo de que, enfim, somo minhas ideias ao debate diverso e fundamental –formador para tantas gerações– que há um século tem lugar nestas páginas.

E isso merece comemoração.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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