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Maria Alice Setubal

Escuta, participação cidadã e responsabilização

Compreender bairro, cidade e país exige ouvir o diferente, manter o diálogo

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Maria Alice Setubal

Doutora em psicologia da educação (PUC-SP), socióloga e presidente do conselho da Fundação Tide Setubal e do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas)

Iniciamos 2021 com uma nova onda da Covid-19, revelando um estado de calamidade pública em Manaus. Não temos ainda a certeza da extensão dessa nova variante do vírus para as demais regiões do país, mas os números mostram que estamos em um cenário dramático. Nele, temos um governo federal sem planejamento para a compra e distribuição das vacinas, causando insegurança em toda a população.

Da compra, distribuição e atendimento à população com a vacina até a abertura das escolas para aulas presenciais, o debate e as possíveis ações sobre todos os temas tornam-se encapsulados por posicionamentos ideológicos que pouco têm a ver como uma visão mais consistente da realidade e do que é melhor para as pessoas.

A socióloga Maria Alice Setubal, presidente do conselho da Fundação Tide Setubal e do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) - Reinaldo Canato - 22.jan.19/Folhapress

Lideranças populistas de extrema direita, embora eleitas pelo voto direto, buscam inúmeras formas de restringir o espaço democrático, difundindo o ódio e o conflito entre os diferentes grupos, inviabilizando o diálogo e a escuta entre pontos de vista diversos ou opostos. Na maioria das vezes não importam dados, argumentos racionais ou exemplos históricos —as palavras e os discursos servem para inflamar o “nós contra eles”, já comum há muitos anos, e tornam inviável qualquer construção de pontes.

Várias vozes têm apontado para a importância de buscar o diálogo entre pessoas com posicionamentos diversos, assim como entre os diferentes setores da sociedade: mercado, Estado, academia, organizações da sociedade civil ou entidades filantrópicas, de modo a construirmos consensos que nos façam avançar como pessoas e como sociedade.

Diversas cidades e países no mundo têm buscado modelos de implementação de políticas de forma mais participativa para que seus cidadãos possam opinar sobre questões que lhes dizem respeito e também responsabilizar-se por monitorar os resultados. Ricardo Abramovay explica com mais detalhes as diferentes experiências bem-sucedidas pelo mundo no artigo “Para fortalecer a democracia, o voto a cada dois anos não basta”.

Por aqui surgem possibilidades contemporâneas de participação citadas por Abramovay que, embora ainda sejam experiências pontuais, têm resultados que podem apontar caminhos interessantes de diálogo que envolvam questões de interesse para toda a sociedade e não apenas para um pequeno grupo.

A organização Delibera Brasil, por exemplo, desenvolve iniciativas com a formação de miniassembleias para ouvir cidadãos —sorteados aleatoriamente, mas de acordo com o perfil da localidade—, que são capacitados por meio de oficinas que usam dados, informações e conhecimentos sobre o tema em discussão para que, numa última etapa, seja possível chegar a alguns consensos em grupo e com a participação de cada um. Essa metodologia é parte do Programa Reage SP, uma parceria da Fundação Tide Setubal e a Rede Nossa São Paulo, para o debate com os cidadãos sobre qual é o cenário de sonho, mas de acordo com orçamente viável, para São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo.

Esses e outros exemplos mostram que o território importa, e a potência do local deixou de ser apenas o cenário ou pano de fundo das iniciativas. Precisamos atuar pelo encontro de diferentes ideias e identidades, valorizando e escutando saberes para aprender com o diverso.

Como aponta o sociólogo Bruno Latour, a cartografia tradicional das lutas das classes sociais não consegue mais explicar as lutas políticas, pois as questões do século 21 exigem uma visão geossocial com a materialidade dos territórios: a poeira, o húmus, a sucessão de camadas, as relações entre as pessoas, as organizações, os espaços e o meio ambiente, constituindo-se um todo de enorme complexidade.

Compreender nosso bairro, nossa cidade, nosso país exige escutar o diferente, manter o diálogo, construir pontes para tecer um caminho de desenho de políticas públicas que respondam aos nossos desejos e sonhos de forma coletiva. Construir uma relação que preserve as singularidades e ao mesmo tempo se conecte com o mundo, não numa globalização em que apenas poucos ganham, mas na direção de uma maior harmonia e justiça entre as pessoas e entre os países.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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