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Natalia Pasternak

É correto São Paulo manter templos religiosos abertos no pior momento da pandemia? NÃO

Atividade religiosa presencial pode trazer conforto, mas não faz dela essencial

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Natalia Pasternak

Presidente do Instituto Questão de Ciência e coautora do livro Ciência no Cotidiano, da editora Contexto

Em fevereiro de 2020, uma frequentadora de uma igreja evangélica na Coreia do Sul testou positivo para Covid-19. Não está claro onde ela se infectou. Ficou conhecida como a paciente 31. Dois dias depois, 15 pessoas ligadas à mesma igreja testaram positivo. Um mês depois, milhares de pessoas com a doença foram conectadas à paciente 31 e à igreja. Enquanto a congregação sofria com a Covid-19, toda a cidade foi afetada. Casos surgiram em hospitais, casas de repouso e outros templos. Todos os novos registros eram em áreas próximas à igreja, que se tornou o foco de mais de 5.000 casos. O superespalhamento foi um dos primeiros observados nesta pandemia.

Templos religiosos são locais propícios para a transmissão de doenças respiratórias como a Covid-19. Como o vírus se propaga de pessoa para pessoa, através de gotículas emitidas quando falamos (ou cantamos), que local melhor do que serviços religiosos, onde pessoas se aglomeram para justamente recitar e cantar juntas? Não é por acaso que observamos eventos de superespalhamento como este da Coreia do Sul.

Assim como templos, também teatros, cinemas, bares, academias, casas de shows e restaurantes são ambientes de risco para contaminação. São todos locais fechados, muitos com ar condicionado, e que também reúnem um grande número de pessoas. Durante um lockdown, precisamos restringir ao máximo a circulação de pessoas e impedir que elas se aglomerem.

A decisão do governo do Estado de São Paulo de proibir os cultos, mas manter os templos abertos, resolve parcialmente o problema. Os cultos, logicamente, oferecem maior risco, pela grande interação entre pessoas a recitar, falar alto e cantar.

Impedir temporariamente essa atividade trará um impacto positivo para a redução do número de casos, hospitalizações e mortes. A decisão de manter os templos abertos para outras atividades religiosas, no entanto, preocupa, pois durante esta fase mais restritiva a ideia é diminuir a circulação de pessoas. A visitação ao templo, mesmo que não gere aglomeração no local de culto, causa uma mobilidade que exige demanda de transporte público e contatos que poderiam ser evitados.

Atividades religiosas trazem conforto a muita gente, mas isso não faz delas atividades essenciais. Academias, teatros, cinemas e até mesmo uma boa conversa no bar com os amigos também trazem conforto e bem-estar. Se vamos abrir os templos para prover esse bem-estar, como justificar manter fechados outros estabelecimentos que também confortam o espírito? E assim como um preparador físico pode nos orientar a fazer exercícios em casa ou ao ar livre, e podemos assistir a concertos e shows online, tenho certeza de que os sacerdotes de todas as religiões também podem orientar seus fiéis a manter a espiritualidade e a religiosidade em casa e organizar atividades virtuais.

Não se pode comparar a essencialidade de nenhuma dessas atividades à das escolas: a perda de contato com outras crianças e o atraso no processo de aprendizado não podem ser comparados, em termos de impacto social, a uma mudança temporária na rotina religiosa. Escolas também, infelizmente, precisam ser fechadas para lockdown.

Seria muito benéfico para a sociedade se os líderes religiosos que protestam por templos abertos optassem por instruir seus fiéis a aderir às restrições e organizassem ações humanitárias para que os mais carentes também possam ficar em casa. Religião, afinal, não é amor ao próximo?

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