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MEC com ideologia

Ala busca reforçar o Escola sem Partido, movimento que veta temas e palavras

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Manifestantes contrários e favoráveis à aprovação do projeto da Escola Sem Partido discutem na Câmara em 2018 - Pedro Ladeira - 11.jul.18/Folhapress

Recém-nomeada para o cargo de coordenadora de materiais didáticos do Ministério da Educação, Sandra Ramos é adepta do Escola sem Partido, movimento de íntima associação com o bolsonarismo.

A escolha se insere numa teia de disputas internas no MEC, em vitória da ala ideológica da pasta, liderada pelo secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim —que operou alterações no edital do Programa Nacional do Livro Didático, incluindo a retirada de menção à agenda da não violência contra a mulher.

Ramos é pedagoga, professora da Universidade Federal do Piauí, conservadora e colaboradora do Escola sem Partido. O movimento, como é sabido, dedica-se a combater o que considera doutrinação esquerdista em salas de aula.

Entre os temas já defendidos pela nova coordenadora destacam-se a exclusão da base curricular de referências às culturas africana e indígena, bem como às violações de direitos humanos ocorridas na ditadura militar (1964-1985).

A preocupação com o proselitismo ideológico de professores em todos os níveis de ensino é legítima, sejam quais forem as preferências manifestadas. No entanto combater tais excessos por meio de vetos a determinados temas e até palavras constitui distorção pior.

Entre as principais questões em debate está a suposta “ideologia de gênero”. O termo, nada explicativo, nasceu de embates a respeito da igualdade de gênero e de pessoas LGBTs no âmbito internacional, embora a expressão não faça parte do léxico de educadores e especialistas no tema.

Em abril do ano passado, o Supremo Tribunal Federal derrubou, de forma unânime, uma lei do município de Novo Gama (GO) que vetava a discussão de gênero em escolas.

Projetos dessa natureza proliferam no país. Levantamento do Movimento Educação Democrática, de agosto de 2019, registrou 121 propostas municipais e estaduais vinculadas ao Escola sem Partido.

Será enorme retrocesso se tal ofensiva contaminar as diretrizes pedagógicas definidas pelo MEC. A única maneira virtuosa de combater doutrinações é elevar a qualidade da educação e zelar pela pluralidade dos conteúdos oferecidos.

editoriais@grupofolha.com.br

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