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O que a Folha pensa inflação

Viés de alta

Políticas desastradas desvalorizam o real e tornam provável elevação dos juros

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Sede do Banco Central, em Brasília - Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Ao que tudo indica, o Banco Central será obrigado a subir em breve sua taxa de juros, hoje na mínima histórica de 2% ao ano. Trata-se de resultado da imprevidência do governo de Jair Bolsonaro, que se mostra incapaz de lidar com os desafios da economia e da saúde.

Nos últimos meses, o país foi atingido por dois choques simultâneos que comprometeram as perspectivas de retomada econômica e trouxeram enorme insegurança. O primeiro é o agravamento da pandemia, consequência da conduta negacionista do Planalto.

A recaída recessiva que decorre do fechamento de muitas atividades tornou inevitável o retorno do auxílio emergencial. Como não houve planejamento adequado, com cortes em outas áreas para pagar o benefício necessário, aumentaram as incertezas sobre a trajetória das contas públicas.

O risco de descontrole, como sempre, leva à alta do dólar e dos juros de longo prazo, ambos fatores negativos para a confiança de famílias e empresas. Também ficam magnificados os problemas de repasse interno dos maiores custos de produtos importados ou referenciados no mercado internacional, caso de alimentos, matérias-primas industriais e combustíveis.

Por ora não houve um salto no abismo da irresponsabilidade orçamentária, com a manutenção pelo Senado das necessárias contrapartidas ao pagamento do auxílio emergencial. Cumpre lembrar que o próprio governo alimentou pretensões populistas ao tentar abrir mais espaço para gastos.

É nesse contexto que o país passa pelo segundo choque, desta vez externo, que é o aumento dos preços em dólar das matérias-primas conforme o resto do mundo retome o crescimento neste ano.

A elevação das cotações das commodities de fato foi notável desde o início de 2021, acumulando cerca de 20% em apenas dois meses. Com o real desvalorizado, tudo se transforma em inflação —ainda quando há intervenções desastradas como se viu na Petrobras.

É um círculo vicioso que resulta num quadro difícil para o Banco Central. Mesmo com a economia deprimida, não há mais folga na trajetória da inflação, que ameaça novamente superar as metas (3,75% neste ano e 3,5% em 2022).

É trágico que o país se veja na iminência de encarecer o custo do dinheiro em momento tão adverso. Há que fazer todo o possível, enquanto é tempo, para minimizar a intensidade desse movimento.

editoriais@grupofolha.com.br

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