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Ambiente inflamado

Salles dá mais motivos para sua demissão ao defender madeireiros na mira da PF

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O ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente - Adriano Machado/Reuters

Até antas e jacarés sabem que não se deve confiar nos planos de manejo e documentos de origem florestal exigidos para extrair madeira na floresta amazônica. As fraudes campeiam no esforço de esquentar toras retiradas de áreas por vezes a centenas de quilômetros do local indicado na papelada.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, professa fé cega, contudo, nos certificados exibidos por empresários atingidos na maior apreensão de madeira já realizada no Pará. A operação da Polícia Federal interditou 131 mil metros cúbicos em toras, o bastante para construir 2.600 casas populares.

Salles se deslocou ao estado com o objetivo de afrontar a PF —não apenas uma, mas duas vezes. Reincidiu no tipo de desautorização com que costuma contemplar seus subordinados, como fiscais do Ibama após autuarem garimpeiros.

Desta vez o titular da pasta se excedeu ao perfilar-se com os supostos delinquentes fora de sua jurisdição. A PF não está sob sua alçada, nem sua repartição foi investida de poder controlador sobre outros órgãos, papel do Congresso, do Ministério Público e do Judiciário.

Mesmo que empresários flagrados terminem isentados, não há justificativa para a insubordinação. Em lugar de buscar os canais de seu próprio governo para questionar a operação, Salles engalfinhou-se com o delegado responsável num constrangedor bate-boca.

Do alto de sua incompetência, na primeira visita ao local de apreensão, o ministro inspecionou algumas toras e se apressou a proclamá-las legais. Na segunda incursão, teve o desplante de dar uma semana para a PF concluir a investigação.

Não espanta que, entre uma e outra investida, o delegado Alexandre Saraiva tenha dito à Folha que na PF “não vai passar boiada”. Referência pouco sutil à fala de Salles na famigerada reunião ministerial de abril de 2020, quando propôs aproveitar a pandemia para avançar a agenda antiambiental.

Também em entrevista a este jornal, Salles acusou o delegado de desrespeito com um ministro de Estado. Na mesma data, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgou que março teve a maior taxa de desmatamento de toda a série histórica pelo sistema de monitoramento Deter.

Este é o real legado de Salles, ao lado de incêndios recordistas no Pantanal. Demiti-lo é a única maneira de evitar que o Brasil se torne um pária ainda mais desprezado na reunião de cúpula sobre clima que o presidente americano, Joe Biden, convocou para o dia 22.

editoriais@grupofolha.com.br

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