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Fogo na CPI

Bolsonaro abre novas frentes de conflito em ação atabalhoada contra a comissão

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O presidente Jair Bolsonaro - Pedro Ladeira/Folhapress

Governantes de todas as orientações políticas e ideológicas procuram conter ou até esvaziar a atuação de comissões parlamentares de inquérito que miram suas administrações, o que pode ser legítimo a depender dos métodos empregados. Essa lógica não se aplica, entretanto, a Jair Bolsonaro.

Como de costume, o presidente trocou o papel de bombeiro pelo de incendiário ao fazer seu movimento contra a CPI da Covid no Senado. Na bombástica conversa com o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO), Bolsonaro abriu novas frentes de conflito e deu mais motivos para que os parlamentares levem adiante a apuração.

Note-se que no diálogo, prontamente divulgado por Kajuru, não há uma mísera tentativa de defesa da atuação do governo na crise sanitária —a menos que reste algum trecho misterioso a vir à tona.

Nem por apreço às aparências Bolsonaro procura justificar o boicote ao distanciamento social, a difusão da cloroquina ou a campanha antivacina, só muito tardiamente abandonada. O ministro da Saúde, aliás, candidamente trata o chefe como inimputável (“É meu dever persuadir meu presidente”) em entrevista concedida à Folha.

A estratégia bolsonarista, se é que se podem unir as palavras, consiste em tumultuar e intimidar.

Ele pede a inclusão de governadores e prefeitos nas investigações, numa grosseira manobra evasiva. É claro que uma CPI não terá como averiguar as ações de 26 estados, Distrito Federal e 5.570 prefeituras sem pontos de partida claramente definidos —como há de sobra no governo federal.

Quer que avance a discussão sobre o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, responsáveis por examinar nesta quarta (14) a decisão liminar que determinou a instalação da CPI. Trata-se de ataque gratuito e covarde à corte, que não poderá mostrar temor ante a bravata.

Do mesmo modo, o Parlamento fica obrigado a reagir com altivez às ofensas chulas dirigidas ao senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), no trecho da conversa tornado público por último.

Bolsonaro depois deu a entender que não esperava que a gravação do diálogo fosse ao ar, versão que faz dele um tolo. Mas tampouco será demonstração de inteligência se tudo ocorreu de caso pensado.

Mesmo uma CPI inepta tem grande potencial de dano para o governo de turno, se este não conseguir controlá-la com competência.

A comissão da Covid, se de fato vier a operar (há dúvidas até se será presencial ou não), trabalhará em terreno explosivo, como o evidenciam as dezenas de pedidos de processos de impeachment de Bolsonaro a respeito dos quais o presidente da Câmara deve uma decisão.

editoriais@grupofolha.com.br

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