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Francisco Iglesias

Mentoria reversa é para sempre

Aprendizado de mão dupla beneficia funcionários jovens e mais velhos

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Francisco Iglesias

Engenheiro, é executivo de empresa e fundador da startup Juventude Reversa

Muitos de nós já escutamos que Jack Welch, ex-presidente da GE (General Electric), além de fazer com que a empresa se tornasse a número 1 ou 2 em tudo o que produzia, aumentando as suas receitas de US$ 26,8 bilhões em 1980 para US$ 130 bilhões em 2000 (ano anterior à sua saída), foi o criador da mentoria reversa. Esse conceito surgiu no fim dos anos 1990, quando Welch promoveu o desenvolvimento e aprendizado do uso da internet pelos mais velhos através do ensino e apoio dos profissionais mais jovens.

Atualmente é cada vez mais comum a prática da mentoria reversa, uma metodologia de ensinamento e aprendizado de mão dupla. Para os jovens funcionários, o método contribui para o desenvolvimento da maturidade e da humildade ao saber ouvir o outro. Para os mais experientes, demonstra que os conhecimentos dos mais jovens vão muito além do uso das mídias digitais, provocando uma reflexão de temas como a discriminação racial, a homofobia e o aquecimento global.

O gerente de TI Simom Gamboa, 30, participou de um projeto de mentoria reversa da Procter & Gamble, onde teve a oportunidade de ensinar profissionais mais experientes do que ele - Bruno Santos - 29.ago.14/Folhapress

Em 2020 tive a minha primeira experiência em mentoria reversa, ao participar de um programa de aceleração de startups. Os profissionais tinham pouquíssimos quilômetros rodados e o foco, como os demais programas de inovação, era construir um “elevator pitch”, algo como um discurso a um potencial financiador com duração de um a três minutos —ou seja, como se fosse uma viagem de elevador. Reza a lenda que devemos estar preparados para o caso de encontrarmos no elevador o Bill Gates, da Microsoft, ou um Antônio Luiz Seabra, da Natura, para nos tornarmos o Mark Zuckerberg, o criador do Facebook. Terminei o programa com a sensação de que o conteúdo não era uma novidade importante, mas que a valorização da forma passou a ser a bola da vez.

A forma se transforma, se deforma e se reforma, continuamente.

Segundo o contador da população 50+, da Consultoria Ativen, a cada 21 segundos “nasce” um brasileiro com mais de 50 anos para se somar à geração de uma população superior a 55 milhões de pessoas.

E o que é mais difícil quando se procura emprego acima dos 50? É a idade. Existe um preconceito no mercado de trabalho brasileiro contra profissionais mais velhos. No entanto, as empresas parecem não estar prestando atenção nesse fenômeno que está surgindo. Faltam campanhas nos meios de comunicação que combatam a discriminação etária, que aumentem o conhecimento sobre envelhecimento e promovam a criação de leis contra essa discriminação. Não dá mais para relevar quadros como o do programa “Porta dos Fundos”, que ridicularizou uma suposta mãe, “uma mulher adulta de 57 anos”, que tem dificuldades com a tecnologia. Não é uma questão de idade; trata-se de aprendizagem.

Andre Salgado (sentado), 39, e Miguel Longuini, 21, participaram de programa de mentoria reversa do Citibank - Joel Silva 31.ago.14/Folhapress

Para tornar a ideia mais clara, uso o exemplo de profissionais de planejamento: se você é daqueles não familiarizados com tecnologia e se assusta com novos termos como metodologia ágil, “MVP”, “Squad” e “Scrum”, não se preocupe: tudo isso é um verdadeiro “déjà-vu” de práticas já consolidadas.

A metodologia ágil é a forma de acelerar as entregas durante o desenvolvimento de um projeto, fracionando o todo em partes incrementais que possam ser validadas em todas as etapas —e não só ao final, como antes era feito. MVP (“Minimum Viable Product” ou “Produto Mínimo Viável”) é o velho e bom protótipo de antes; porém, com mais testes para que o produto possa ser oferecido mais maduro ao mercado. “Squad” são os clássicos trabalhos em equipes multidisciplinares, que sempre foram desejados e existiam, mas não formalmente como agora. E “framework Scrum”, grosso modo, é utilizar de Post-its para algum “brainstorm” —técnica antiga para compartilhamento de ideias. Com os Post-its é mais fácil um item ser movido ou descartado, ou seja, ajudam a tornar a forma de anotação mais fluida em relação à escrita fixa.

Envelhecer é também adaptar o vasto conteúdo das experiências na nova forma do corpo e da forma de viver. É aprender continuamente que tudo muda de forma. Com mentoria, com o aprendizado. Sempre.

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