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Adriano Resende Lima e Jair de Jesus Mari

O chamado de todos os médicos

Desalento e deslumbramento de um psiquiatra na linha de frente da pandemia

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Adriano Resende Lima

Médico psiquiatra e psicanalista, é doutor pelo Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Jair de Jesus Mari

Médico psiquiatra, é professor titular e chefe do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

“The forces of fate that bear down on man and threaten to break him, also have the capacity to ennoble him”
(As mesmas forças do destino que destroem o homem também têm a capacidade de enobrecê-lo)
Viktor Frankl, 1984

Este breve fragmento reflexivo do psicoterapeuta Viktor Frankl (1905-1997) lança luz sobre a borda limítrofe entre o viver e morrer, entre o desalento e o deslumbramento. Nesta fronteira, dolorosa e assustadora, é onde se encontram as forças vitais mais nobres que podem recuperar a vida ou, ao menos, dar conforto e dignidade à perda inevitável dela.

A realidade da pandemia tem dimensões variadas, a saber: a dimensão do vírus e seu potencial de transmissão/contaminação; a dimensão do distanciamento social e seu impacto sobre a liberdade do indivíduo; e, sobretudo, a esfera hospitalar e seu limite para acolhimento das necessidades de tratamento e internação.

Cenário epidêmico desolador. O sistema hospitalar mostra-se em estado crítico e à beira do colapso. Neste contexto, e em razão das demandas emergentes para ajudar as equipes de saúde, estas mesmas que se encontram exauridas pelo "burn-out" e insuficientes para atender à demanda exponencial de casos, engendrou esforços para que todos os médicos do complexo hospitalar da Unifesp, em São Paulo, fossem convocados a prestar sua solidariedade no combate à Covid-19, inclusive alguns psiquiatras.

No pronto-socorro (PS), ao todo, são cerca de 40 a 50 leitos, a depender da pressão de demanda. Todos os admitidos nesta unidade passam por rastreamento clínico, laboratorial e radiológico, além do teste de swab (semelhante a um cotonete) da orofaringe para diagnóstico do Sars-CoV-2.

Após o rastreamento, os pacientes avaliados como mais graves são colocados em fila de espera para admissão na UTI. Em linhas gerais, estabeleceram-se três níveis para critérios de gravidade, sendo o parâmetro de autonomia respiratória o principal: 1 - aqueles que apresentam autonomia respiratória, em ar ambiente; 2 - os que necessitam de cateter de O2; e, 3 - os mais graves, que requerem intubação orotraqueal (IOT). Os demais são mantidos na retaguarda do próprio PS, sob vigilância das equipes médicas e de enfermagem, com salvas à infatigável briosa equipe de enfermagem.

Após 25 anos, reexperimentar a atividade de um plantão em pronto-socorro foi algo desafiador para o dr. Adriano Lima —reexperimentar esta mesma atividade na especialidade da clínica médica foi ainda mais. Havia algo que sobrepujava ao desafio. Havia ali o espírito de corpo em prol de um bem maior.

Um dos momentos mais marcantes foi a troca do plantão. De um lado, a equipe que se retirava e transmitia as evoluções clínicas de cada caso; do outro, a equipe do turno noturno, que, atentamente, recebia essas evoluções. Residentes do 1º, 2º e 3º anos (R1, R2, R3) estavam ali. Todos bem jovens, incluindo o chefe de plantão, brioso e zeloso, que, há cerca de cinco anos, havia passado conosco no curso da graduação.

Sentimento de admiração por esses jovens, com faces de garotos e postura de homens dignos, frente ao desafio de zelar por aqueles enfermos. O espírito de corpo era patente, bem como a disponibilidade solidária em oferecer ajuda.

Após a passagem do plantão, os casos foram divididos entre nós. A função clínica mais importante, como já mencionado, era procedermos à avaliação alguns parâmetros fundamentais. Dentre eles, o grau de autonomia respiratória, sinais vitais gerais (incluindo o estado de consciência) e evidências de congestão venosa (edema) ou torácica (dispneia e arritmias cardíacas).

A função humana de maior valor era oferecer dignidade aos pacientes. Dentro dela, o desafio e o medo, intrínsecos à atividade médica em unidades de tratamento para Covid-19, deram lugar ao privilégio. Privilégio de registrar, na retina de nossas memórias, o olhar triste dos pacientes, por vezes lacrimejante. Mas, nesses mesmos olhares, estava ali a gratidão pelo nosso tempo de escuta (tão raro nos últimos tempos), empenho de esforços e oferta de ajuda.

Nessas memórias, principalmente afetivas, ficará inscrita a nota de maior alcance dessa complexa vivência, onde o sentimento de desalento, pelo contexto de sofrimento, deu lugar ao deslumbramento, por fazermos parte desse esforço coletivo de ajuda.

Por fim, e principalmente, fazer parte desse espírito de corpo institucional e humano não foi apenas um desafio; foi, sobretudo, um privilégio. O privilégio de dar sentido ao significado das linhas introdutórias deste texto, representadas pela reflexão de Frankl.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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