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Roberto Livianu e Izabela Drumond

Transparência cega

Há indignação em decorrência da exposição da corrupção, mas não é linear

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Roberto Livianu

Procurador de Justiça e doutor em direito pela USP, é idealizador e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção

Izabela Drumond

Jornalista

Na “era da informação”, as redes sociais são ambiência fácil para a prática de todas as espécies de abuso, linchamentos, “lacrações” e “cancelamentos” —inclusive no campo do poder político, assassinando a reputação do adversário, sob a argumentação da livre manifestação das liberdades individuais. O conceito de “era da informação”, alargado pelo sociólogo e pesquisador da comunicação Manuel Castells, aborda a “sociedade em rede”: a cultura da internet e como as novas tecnologias da informação impactam na estruturação da sociedade contemporânea.

No século 21, a percepção que temos é a de que milícias virtuais agem como verdadeiros “leões da internet”. Que transmite sensação de impunidade para a sociedade civil ante a falta de consequências punitivas efetivas. Há exceções: situações de notória infração penal e com ampla publicidade —o que está intimamente relacionado ao alcance dado pelas redes sociais digitais, especialmente pelo número de seguidores.

A questão é que Twitter, Instagram, Facebook e YouTube não encontraram ainda uma forma de medir a reputação —eles apenas contabilizam seguidores e “likes”. Associado a isso, temos que o volume e o fluxo de informação no século 21 é tão grande que, além de ser impossível saber tudo, torna-se também improvável a retenção de muitas informações que seriam, inclusive, importantes de lembrar.

O déficit educacional e informacional distorce parte importante da compreensão das notícias, e as redes sociais favorecem os mal-intencionados, que fazem uso da mentira à exaustão, contando com a ineficácia da neutralização pelas vítimas. O veneno das fake news, que, mascaradas de verdade, oferecem notícias com informações inverídicas. Se antes se chamava vulgarmente de “publicidade” toda a notícia em que não se ouviam “os dois lados da história”, as fake news não ouvem lado nenhum com reputação na área. E isso é mortal.

É só contextualizar a situação em que vivemos no Brasil: a saúde perdeu o rumo quando a medicina deixou de ser definida por aqueles que se capacitaram para isso. Nunca se pensou que a medicina seria discutida por leigos e políticos, tendo mais ressonância que a voz dos profissionais de saúde, e as discordâncias de pensamento invalidariam um campo do conhecimento científico. Pois é: o século 21, no Brasil, tem isso.

Nas redes sociais digitais, a voz retumba em eco, e quanto maior a audiência, maior o efeito. E ressona independentemente do conteúdo.

A capacidade de geração de corrupção no Brasil parece ser proporcional ao fluxo de informação da “sociedade em rede”, mas a capacidade humana de aprender com as experiências corruptas e determinar ações para que elas não voltem a acontecer não é suficiente.

O caso do senador Chico Rodrigues (DEM-RR) e os R$ 33 mil na cueca já está velho. Imagine, então, se lembraremos os nomes dos réus nos processos do mensalão e do petrolão, que figuraram exaustivamente entre as hashtags mais replicadas no Brasil no período das investigações e condenações? Hoje, muitos não se lembram mais. Existe indignação em decorrência da exposição dos casos de corrupção, mas ela não é linear.

Muitas pessoas se dizem contra a corrupção, mas educam os próprios filhos para serem os mais malandros, os mais espertos —e não os mais íntegros. Quando têm oportunidades de obter vantagens indevidas no campo público ou privado, aproveitam-nas. São contra a corrupção dos outros, portanto.

O poder do povo, na essência do Estado democrático de Direito, bem como o equilíbrio do respeito à autonomia dos três Poderes, tem a transparência como holofote. Inclusive no antes dito “quarto poder” —a mídia—, mas obviamente essa transparência não nos imuniza, não garante segurança jurídica.

Na “era da informação”, o jogo do poder continua maquiavélico, e o combate permanente à corrupção deve ser um norte constante. No Brasil, a tarefa de controlá-la assemelha-se à travessia a nado de um extenso lago de águas bem transparentes, mas cheio de crocodilos famintos.

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