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Ucrânia revisitada

Em confronto com Ocidente, Putin pode ter palavra final na guerra civil vizinha

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O presidente da Rússia, Vladimir Putin - Alexey Druzhinin/AFP

Sete anos atrás, a Ucrânia ganhou as manchetes do mundo. O governo pró-Moscou em Kiev foi derrubado, e Vladimir Putin, contrafeito, se comportou como um líder da década de 1930 e anexou a Crimeia, região étnica russa do vizinho.

Não satisfeito, Putin ajudou a fomentar uma guerra civil nas áreas de maioria russa no leste da Ucrânia, conhecidas como Donbass, ou bacia do rio Donets.

Após dois anos de combate e episódios infames, como a derrubada de um Boeing da Malaysia Airlines sobre a região, um arremedo de cessar-fogo foi obtido.

A motivação de Moscou é geopolítica: em sua cartilha, perder os antigos territórios soviéticos que separavam suas fronteiras das forças ocidentais da Otan é inaceitável.

Em 2020, o russo reforçou sua posição em duas dessas frentes. Ajudou a consolidar a ditadura na Belarus, que enfrentou grandes protestos, e se firmou como garantidor da paz entre Armênia e Azerbaijão, encerrando uma guerra curta.

A Ucrânia, que tem metade do Donbass ocupado por rebeldes separatistas desde 2014, deu uma mãozinha a Putin em sua missão de manter o país longe do arcabouço ocidental, ao enviar tropas e sugerir uma retomada à força das áreas.

Moscou reagiu e despachou dezenas de milhares de soldados e equipamentos para as fronteiras, anunciando um exercício militar. Em 2008, o mesmo roteiro antecedeu um conflito que amputou parte da Geórgia em favor de russos étnicos, evitando que o país do Cáucaso entrasse na Otan.

O Ocidente respondeu com palavras fortes, e o presidente americano, Joe Biden, apresentou-se como um defensor dos ucranianos. Crítico de Putin, ele surpreendeu ao ligar para o russo e convidá-lo para uma cúpula sobre a Ucrânia.

Para analistas, isso pode acabar levando exatamente ao ponto que Moscou quer: validar os acordos de paz de Minsk, que preveem a subordinação das áreas rebeldes a Kiev, mas com uma autonomia que na prática mantém tudo como está.

Para parecer forte na mesa de negociação, Biden logo depois anunciou as mais amplas sanções contra a Rússia desde 2018.

Ninguém deseja uma guerra, não menos pelo óbvio risco de escalada —as envolvidas no entrevero, afinal, são as duas maiores potências nucleares do mundo. O senso comum indica que Biden e Putin se entenderão mais cedo ou mais tarde, talvez às custas da integridade territorial da Ucrânia.

editoriais@grupofolha.com.br

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