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Marcus Lacerda

Ativo diferido

Assim como no mercado de ações, epidemiologia é observar tendências

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Marcus Lacerda

Médico infectologista e pesquisador em doenças tropicais em Manaus

Os tempos são de plena liberdade de expressão. O ministro da Economia opina sobre a imperiosa necessidade de vacinação, e o chefe supremo da nação define tratamentos para a Covid-19 junto ao Conselho Federal de Medicina. Há especialistas por todas as partes, e a pandemia nos fez profundos conhecedores de temas com os quais lidamos apenas há pouco mais de um ano.

Na área financeira, somos tradicionalmente guiados por tendências de mercado, análises de risco e, nos bastidores, por informações privilegiadas. Na Bolsa de Valores, pouco se pode opinar sobre a queda ou a alta no dia seguinte, mas a tendência ao longo do tempo sempre é de alta. Sabidamente investimos em ações, conhecedores de suas vantagens no longo prazo. Comprar na baixa e vender na alta são a primeira lição de qualquer investidor principiante. Observar os mercados internacionais é uma forte recomendação para o investidor astuto e antenado com a globalização.

Num pequeno paralelo com a pandemia, a epidemiologia nada mais é do que uma observação de tendências. Números diários de casos subindo ou descendo são inúteis sem a análise de uma série histórica e da tendência dos números. Dizer que a epidemia está no fim quando baixamos de 4.000 para 3000 mortes ao dia é tão arriscado quanto se vender as ações quando se observa pequena queda destas. Observar o comportamento da doença na Europa tem sido uma boa prática do bom epidemiologista latino, porque sabe que os países do Velho Mundo viveram o choque meses antes das Américas.

Como no mercado, a relação entre microrganismos e ser humano pode ser parcialmente projetada, e eventualmente modelada por algumas fórmulas, mas as surpresas fazem parte do jogo. Ninguém previu o crack da bolsa de Nova York, em 1929, como não foi possível prever a pandemia do novo coronavírus, em 2019. O certo é que a Bolsa um dia se recuperou, assim como temos a certeza de que não viveremos para sempre nesta pandemia.

No Brasil, o investidor sério, que aprende mais do que opina, já entendeu que Manaus é sua informação privilegiada e que o aumento de casos aqui antecede em cerca de dois meses o aumento no resto do Brasil.

Sempre existe o investidor sem faro para os negócios, que imagina que Manaus é uma exceção, com má gestão e cheia de bichos exóticos, mas seu concorrente perspicaz toma decisões com um olho no peixe e outro no gato, como dizemos aqui; ou melhor, com um olho em São Paulo e outro em Manaus. Investir em pesquisa na Amazônia, sob vários aspectos, não é gasto, é ativo diferido.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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