Impeachment é recado das ruas para combater a pandemia

Por que parte da imprensa insiste em omitir a oposição do povo a Bolsonaro?

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Foi também em 29 de maio, em meio aos escândalos de corrupção do governo Collor e diante da crescente insatisfação popular, que, em 1992, deu-se a primeira reunião contra o presidente nas ruas. Mais tarde, esse movimento se transformaria no caras-pintadas, protagonista do impeachment após uma CPI ser instalada no Congresso Nacional.

O povo nas ruas é um termômetro essencial para o impedimento de um presidente. Com isso concordam personagens que vão de Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e opositor do governo, a Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados eleito com o apoio de Jair Bolsonaro. Mas como levar a insatisfação do povo às ruas em meio a uma pandemia que já matou quase meio milhão de brasileiros?

Em janeiro, organizamos em 24 capitais as primeiras carreatas pedindo o impeachment do presidente. Em março, instalamos, em diversas cidades do país, outdoors com críticas à condução da pandemia pelo governo federal, que foram hostilizados e vandalizados por seus apoiadores.

Pressionamos, por meio de mobilizações online, pela instalação de uma CPI para apurar a responsabilidade do governo federal pela situação caótica que tomou o país na pandemia de Covid-19.
Instalada, inauguramos em Brasília nosso próprio “pixuleco”, o “Capitão Cloroquino”, representando a obsessão do presidente pelo remédio sem eficácia contra o vírus e a sua necropolítica.

Dialogamos com senadores e fornecemos um dossiê que elenca ações e omissões do governo federal que contribuíram para o avanço da pandemia. Mas nada disso foi suficiente porque, para os políticos, o povo não estava “nas ruas”.

Pois bem, exatamente 29 anos depois o povo tomou as ruas novamente —desta vez, para gritar “fora, Bolsonaro”. Mesmo em um momento crítico da pandemia, a população saiu de casa para protestar, apesar de todos os riscos sanitários, por considerar mais letal o risco de mantê-lo no poder.

O processo de impedimento exige a união de elementos jurídicos e políticos. Os crimes de responsabilidade estão fartamente documentados, e a CPI da Covid tem cumprido o propósito de expô-los para toda a população.

Após mais um 29 de maio histórico, não restam dúvidas sobre a presença dos elementos políticos necessários para a responsabilização do presidente da República.

Estamos em um cenário econômico catastrófico, com miséria e desemprego elevados. As pesquisas de opinião apontam para uma ampla rejeição ao presidente, com a maioria já favorável ao seu impeachment, o que reforça que os brasileiros que corajosamente foram às ruas estão indignados com a sucessão de crimes de responsabilidade e o projeto destrutivo do governo Bolsonaro. É possível estimar que, se não vivêssemos a iminência de uma terceira onda da Covid-19 e se a vacinação não estivesse tão atrasada, seria ainda maior o público das manifestações, tornando esta uma das maiores já feitas no Brasil desde a redemocratização.

Por que então parte da imprensa brasileira insiste em omitir a clara oposição do povo brasileiro a Bolsonaro? Em São Paulo, foram dez quadras tomadas por manifestantes, sendo o maior ato do campo progressista desde o “#EleNão”, em 2018. A imprensa tem responsabilidade pública de reportar os fatos com a dimensão que eles têm. Assim fizeram na cobertura dos atos bolsonaristas, nos protestos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e na celebração dos atos do “Black Lives Matter”. No entanto, foi apenas uma capa de jornal a noticiar os atos, e as coberturas televisivas se resumiram a VTs curtos.

Só resta ao Congresso Nacional, portanto, exercer a sua missão constitucional de instaurar o processo de responsabilização do presidente da República. Aqueles que se colocam contra o impeachment colaboram para um projeto de poder que joga a favor do vírus, contribui para o seu descontrole e, consequentemente, para milhares de mortes —evitáveis— continuarem acontecendo. O impeachment ainda é a melhor medida de combate à pandemia.

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Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Erick Santos , Thaís Chaves , Lucas Paulino , Laura Costa , Ana Luiza Rocha , Marco Martins , Thiago Süssekind e Caio Damazio

Erick Santos, Thaís Chaves, Lucas Paulino, Ana Luiza Rocha, Laura Costa, Marco Martins, Thiago Süssekind e Caio Damazio; articuladores do Grupo Fora Bolsonaro, do Movimento Acredito, em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro

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