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Kleber Luiz Zanchim

Infectados e aulas presenciais: uma questão de premissas

O imunizado pode enfrentar nova infecção, mas disporá de armas imunológicas

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Kleber Luiz Zanchim

Advogado e doutor pela Faculdade de Direito da USP, é apoiador do Movimento Escolas Abertas

Quem se opõe à volta às aulas presenciais adota premissa de que elas colocam em risco a vida dos alunos e dos professores. Disso decorre que, fora da unidade escolar, crianças e docentes estariam mais seguros, vivendo em ambientes controlados e menos sujeitos à Covid-19. Outra premissa é a de reabertura das escolas apenas quando todo mundo estiver vacinado. Daí deflui o reconhecimento de ser factível imunizar-se contra o vírus. Sendo verdadeiras essas premissas, professores e alunos já infectados devem retornar imediatamente à sala de aula e não mais se isolar, mesmo que haja novos casos de contaminados a seu redor.

Se os lugares fora da escola são mais seguros, mas, ainda assim, um professor ou um aluno for infectado neles, também as pessoas do seu convívio extraclasse terão sido expostas ao vírus. A exposição de grupo é ainda maior quando se pensa nas crianças, pois elas não têm condições de se afastar de quem cuida delas. Imagine-se que, passado o período de resguardo, docente e estudante vão para a escola e lá tomam contato com alguém contaminado pelo novo coronavírus. Devem voltar ao isolamento? Não, e por duas razões.

Primeiro, admitindo que um indivíduo curado possa continuar transmitindo o vírus e que viva em um ambiente controlado fora da unidade escolar, ela terá baixo potencial de transmissibilidade porque os seus já sofreram exposição viral anterior. Portanto, o sujeito não “adiciona” vírus aos seus conviventes e, ainda que adicionasse, o faria entre pessoas que resistiram à doença e se imunizaram. Afinal, se a imunidade é possível com vacina, tanto mais o será pelo contato direto com a Covid. Não aceitar esse fato implica desacreditar a imunização/vacinação.

A segunda razão para o retorno e permanência em sala de aula dos já infectados é que, em qualquer política pública sanitária, a base dos indivíduos enfocados tem de ser móvel, sob pena de a política nunca evoluir. Essa reflexão extrapola a questão escolar. Se uma pessoa imunizada pelo vírus ou pela vacina tiver de se isolar toda vez que se aproximar de alguém infectado, a imunização torna-se uma variável inútil.

Isso porque, não se permitindo ao imunizado retomar a vida normal, a base dos passíveis de serem obrigados a se retirar do convívio social continuará sendo de 100%. Como o vírus não vai desaparecer, sempre ocorrerá interação com algum contaminado. Se quem já venceu a infecção for obrigado a retomar o isolamento, a humanidade teria de partir para um permanente lockdown. Ou seja, seria o fim da espécie humana.

Fica mais fácil contornar esse absurdo lógico e biológico quando se compreende melhor a imunização: não se trata de uma barreira ao contágio, mas sim ao agravamento da doença. A perspectiva não é não se infectar pelo vírus, mas sim não adoecer gravemente. O imunizado é o soldado que, eventualmente, pode enfrentar a batalha de uma nova infecção, mas já dispõe de armas imunológicas para não perder a guerra.

Desse modo, sem discutir os pontos de partida de quem se opõe às aulas presenciais, pela lógica deve haver consenso de que, no mínimo, os professores e alunos já infectados têm de, após sua quarentena, 1 - retornar e permanecer em classe inclusive se houver contato com outros colegas contaminados; e 2 - deixar de ser computados nos percentuais de restrição numérica de ocupação das escolas, seja porque não “adicionam” mais vírus ao seu contexto de vida, seja porque estão tão ou mais imunizados do que estariam com a vacinação. É uma questão de premissas.

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