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O que a Folha pensa CPI da Covid

Nada mudou

Enquanto CPI expõe desmandos na gestão da pandemia, Bolsonaro comete novos

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O presidente Jair Bolsonaro - Alan Santos/PR

Em que pese a falta de preparo e planejamento, a CPI da Covid vem conseguindo reunir evidências à mancheia sobre os desmandos e omissões do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia.

No depoimento mais recente à comissão, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, trouxe detalhes que deram substância à desídia presidencial concernente à aquisição da vacina Coronavac.

Não houvesse a administração federal recusado em outubro de 2020 uma oferta de 100 milhões de doses do imunizante, num resultado direto de declarações do mandatário, o Ministério da Saúde teria recebido 49 milhões de doses a mais até o fim de maio.

Naquele momento, contudo, o presidente estava mais preocupado em imprecar publicamente contra o imunizante e promover seus curandeirismos —fruto, ao que parece, dos conselhos de um estapafúrdio “ministério paralelo” que operava à margem da Saúde.

Já chegaram à comissão documentos que indicam ao menos 24 reuniões do grupo, composto por filhos de Bolsonaro, negacionistas como o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e médicos defensores da cloroquina, entre outros.

A incúria não ficou restrita ao Planalto. Só em abril, mais de um ano após a pandemia ter sido decretada pela Organização Mundial da Saúde, o Itamaraty instituiu um grupo de trabalho para intensificar os esforços em prol da obtenção de vacinas, testes e insumos —quase todos, como se sabe, produzidos fora do país.

O mesmo pode ser dito do Ministério da Saúde, que acaba de lançar um novo plano de testagem em massa da população, providência na qual fracassou fragorosamente até agora, não obstante seu papel crucial na contenção da doença.

Tais tentativas canhestras e tardias de correção de rumo, contudo, passam ao largo de Bolsonaro. O presidente, fica claro, nada aprendeu, nada mudou.

Na quinta (27), em seu destampatório semanal pela internet, o mandatário voltou a promover a cloroquina, além de atacar membros da CPI com as baixezas de praxe.

No mesmo dia, o governo, ignorando os sinais de novo recrudescimento da infecção, ingressou com ação no Supremo Tribunal Federal contra as medidas de distanciamento adotadas em Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Norte.

Sendo praticamente nulas suas chances de prosperar, dadas as decisões pregressas da corte, a iniciativa serve, na verdade, ao principal propósito de Bolsonaro durante a pandemia —alimentar o radicalismo de suas bases, açular a população contra governadores e prefeitos e promover o tumulto sanitário que já legou ao país a ignomínia de 460 mil mortes.

editoriais@grupofolha.com.br

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