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Ricardo Gandour

Políticos e botecos da internet

Praça pública digital achatou tempos e distâncias institucionais

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Ricardo Gandour

Jornalista e autor de ‘A Segunda Morte da Opinião Pública – Jornalismo em Retração, Poder em Expansão’ (Summus Editorial)

A internet mexeu com as duas grandes variáveis da humanidade: o tempo e a distância. O fenômeno, ainda a ser mais e melhor estudado, tem impactos no funcionamento das instituições republicanas e da democracia. O que isso tem a ver com a fala do ex-ministro da Saúde na CPI da Covid, ao se esquivar das relações causa-efeito entre ele e o pensamento do seu chefe, dizendo tratar-se de “apenas uma posição de internet”?

A internet e seu subproduto mais dinâmico, as redes sociais, comprimiram sobremaneira o tempo institucional. Antes, ao receber um processo ou inquérito, a autoridade envolvida usufruía de um intervalo de tempo para se debruçar sobre documentos e autos e então se pronunciar pelos canais adequados. Só então as demais partes responderiam, e assim por diante. Hoje, tudo é comentado nas redes desde o primeiro minuto do jogo.Mais transparência e muito menos burocracia e morosidade, sem sombra de dúvida, mas com grandes desafios: políticas públicas são testadas em tuítes, e por vezes já se rotulam numa direção, antes de estudos e aprofundamentos.

A distância institucional foi igualmente achatada. Ruíram-se os pedestais. Qualquer pessoa tem a possibilidade de inquirir e bater boca com parlamentares, ministros e até com o presidente da República, como se todos eles estivessem na mesa ao lado do boteco da esquina. A galeria da audiência pública veio para o botequim. Também, sem nenhuma dúvida, muito mais proximidade e transparência na relação cidadão-governante e eleitor-candidato.

A comunicação direta de governantes com seus públicos não é novidade. Basta nos lembrarmos dos comícios nas praças, das caminhadas em meio ao povo e dos cafezinhos no boteco real da esquina, onde valia dizer qualquer coisa para meia dúzia de fãs ou potenciais votantes. Mas o ambiente digital levou esse contato direto às máximas possibilidades —e consequências. O cercadinho do Palácio do Planalto é, na prática, um estúdio a céu aberto para transmissões em cadeia nacional. Dado o peso do cargo, qualquer manifestação ganha na prática, pelo volume atingido, um caráter oficial. Falado e postado, só não viu ou ouviu quem não quis.

Peso do cargo, liturgia do cargo. É isso que distingue os ocupantes de postos republicanos, sejam eles eleitos ou nomeados com fé pública, dos usuários comuns. É isso, por óbvio, que lhes impõe total e máxima responsabilidade por tudo, literalmente tudo, o que é dito e transmitido na praça pública digital.

O alcance que lhes foi conferido não permite que pronunciamentos ouvidos por milhões sejam banalizados como sendo “apenas posições de internet”. Cabe a eles preservar patamares mínimos de tempos e de distâncias institucionais. Até porque também cabe a eles —eleitos pela maioria, mas governantes de todos—, zelar pela qualidade da República e da própria democracia.

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