Tecnologia a favor do racismo?

Sim, nós, mulheres negras, também fazemos ciência

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Jamile Borges

Antropóloga, doutora em estudos étnicos e africanos, é professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Estive recentemente em uma conferência sobre a presença de mulheres negras na área da difusão da informação científica; esses convites têm sido recorrentes. Sim, nós também fazemos ciência, decodificamos DNA, desenhamos softwares, algoritmos e, sim, nós também podemos falar sobre qualquer tema para além das nossas experiências pessoais e coletivas com o racismo persistente e estrutural deste país.

Projetos como mulheres na TI, meninas na ciência de dados, soapbox science, women in science, que buscam retratar o protagonismo feminino na área, revelam por evidência nossa invisibilidade em universidades e laboratórios ainda muito brancos.

A pandemia fez ganhar as telas do país mulheres falando sobre temas como imunização, bioética, políticas de saúde, sofrimento psíquico. Entretanto, entre essas mulheres, poucas são negras.

Estudos de teóricas afro-americanas da área da TI mostram a desigualdade na distribuição global de recursos científicos, tecnológicos e midiáticos, demandando de nós um compromisso em reduzir os danos às comunidades racialmente afetadas pela chamada algocracia, isto é, sociedades governadas pelo regime dos algoritmos. Não podemos romantizar os processos de transformação digital das empresas e corporações de mídia e também precisamos reconhecer que, como toda produção humana, as tecnologias e seus algoritmos são campos de batalha. Será preciso disputar os lugares e papéis que cada cidadão, cada grupo étnico e social e cada empresa e organização ocupa nesse campo.

É preciso reconhecer que o racismo, como uma tecnologia, cria seus próprios mecanismos de sobrevivência, forçando parcelas inteiras da sociedade a permanecerem à margem do desenvolvimento tecnológico.

Racismo, mídia e tecnologia são práticas que se moldam em narrativas cada vez mais sofisticadas em torno da representatividade ou afirmação sobre quem pode e quem não pode ter direitos a uma vida digna de ser contada e de ser lembrada.

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A pesquisadora da USP Adriana Alves, uma das poucas professoras negras da universidade - Karime Xavier/Folhapress
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