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Gonzalo Vecina Neto

Como enfrentaremos a próxima pandemia?

Urge a criação de um Centro de Controle de Doenças, grave deficiência do Brasil

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Gonzalo Vecina Neto

Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e membro do Instituto Todos pela Saúde

Existirão mais crises sanitárias como esta? Infelizmente, sim. Da forma como o homem está vivendo da Terra e não na Terra, ele cria um estresse ecológico cada vez maior. Esse estresse leva à abertura de caminhos alternativos, como fizeram o Sars-CoV-2, o Mers, o H1N1, a gripe aviária, a gripe suína, o ebola, a Aids e a febre amarela. Essas manifestações são resultantes da ação do homem na natureza.

Para enfrentar a próxima crise, o Brasil precisará de cinco instrumentos. Primeiro, é necessário ter um sistema de saúde de base universal que possibilite acesso a diagnóstico e tratamento. Mas não basta ter a oferta de serviços de saúde; todos os cidadãos devem ser capazes de acessá-los. Uma pessoa pode ter dificuldades para chegar a uma unidade de saúde por falta de dinheiro para o ônibus, ou mesmo por falta de condição social para perceber que tem um problema de saúde. Assim, acesso é um conceito mais amplo do que ter uma unidade de saúde próxima.

Segundo, após o diagnóstico será necessário um sistema de acompanhamento e coleção dos dados. Um caso tem de ser visto com o conjunto de casos em uma base populacional. O espaço demográfico e suas condições são fundamentais para explicar a ocorrência de doenças. Temos na área hospitalar um bom sistema de registro de diagnósticos e tratamentos. O mesmo não se pode dizer do que ocorre na atenção ambulatorial, de emergência, e, principalmente, na atenção primária. Temos de fazer um esforço importante para coletar e interpretar os dados oriundos da assistência à saúde aí realizada. O sistema de informação que chamamos de vigilância epidemiológica é fundamental.

Terceiro, entra em campo uma nova área, a da saúde populacional. Trata-se de interpretar essas informações da assistência à saúde juntando grandes massas de dados, como econômicos, sociais, educacionais, de emprego, de segurança, de saneamento —em suma, cruzar arquivos que permitam realizar correlações que expliquem os fenômenos sanitários que não são determinados por agentes infecciosos. O vírus da Covid-19 não mata: o que mata é a pobreza que faz o pobre ir para a rua em busca de comida, e aí ele encontra a morte.

Quarto, é preciso buscar detalhar os diagnósticos observando a realidade por meio das ciências ôhmicas, como a genômica. Precisamos ter centros de produção de análises contínuas do que está sendo encontrado nos diagnósticos. São instituições que fazem perguntas complexas em relação a tudo o que está ocorrendo no ambiente em que a sociedade está imersa. Identificar e sequenciar agentes infecciosos é fundamental para entender sua dinâmica e comportamento e poderá criar formas de enfrentamento de novas ameaças.

Quinto, temos de desenvolver um movimento nacional junto às universidades para criar uma rede de formação de novos pesquisadores dessas novas ciências —epidemiologistas genômicos, gestores de saúde 4.0. Gente que seja capaz de entender novas e complexas realidades e de analisá-las e propor modelos disruptivos para enfrentá-las.

Noto que a tarefa primeira trata da estruturação do sistema de saúde, ou seja, do SUS, e, principalmente, da sua capacidade de formular as vigilâncias —epidemiológica, sanitária e a vigilância à saúde. A tarefa dois é tipicamente uma ação de polícia sanitária de Estado. As tarefas três e quatro podem ser realizadas fora do Estado. Já a quinta é uma tarefa do Estado que pode ser executada por uma rede de instituições.

O que estamos colocando em discussão é a necessidade de um Centro de Controle de Doenças, um CDC brasileiro. O Todos pela Saúde identificou essa grave deficiência do Brasil e se dispôs a construir um caminho para vencê-la. A Fundação Itaú Unibanco fez uma doação para enfrentar esse desafio e criou, neste ano, o Instituto Todos pela Saúde. No caminho, tem uma pedra —parte desses desafios depende da ação do Estado. Assim, resolvemos pular a pedra e tentar criar respostas possíveis e preparar o terreno para, no médio prazo, entregar ao Estado algo que poderá vir a se constituir em um CDC brasileiro.

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