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Cristiane Fontes e Justin Winters

Diversidade sociocultural da Amazônia é essencial para soluções climáticas

Ainda assim, vidas e direitos dos povos indígenas estão sob ataque no Brasil

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Cristiane Fontes

Jornalista, é diretora da Amoreira Comunicação e responsável pelas parcerias regionais e com o Brasil na Global Canopy, organização não governamental voltada ao fomento de uma economia global sem desmatamento

Justin Winters

Cofundadora e diretora-executiva da One Earth, organização que promove e mobiliza ciência, “advocacy” e filantropia para impulsionar ações coletivas voltadas a limitar o aumento da temperatura média global a 1,5ºC

A representação visual da Amazônia ainda reforça, muitas vezes, uma percepção equivocada de ser um espaço despovoado. No entanto, cerca de 180 povos indígenas, com línguas, culturas, modos de vida e cosmologias próprias, têm a região como lar. E há mais de 10 mil anos estimulam, ativamente, a diversidade de plantas e de animais na floresta.

Há evidências de consumo de plantas utilizadas no Brasil, dentre as quais a castanha-do-pará, a mandioca e o açaí, desde pelo menos 11 mil anos, segundo um novo relatório da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ou, como aponta artigo de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) publicado na revista Science recentemente, as florestas domesticadas na Amazônia devem ser vistas como um celeiro contra a insegurança alimentar.

Garimpos dentro da terra indígena yanomami, em Roraima - mar.2021/Polícia Federal

Há milênios povos indígenas cuidam desses territórios, transmitindo práticas de manejo de geração a geração. São seus modos de vida que ajudam a tornar esses lugares essenciais para a preservação da vida do planeta. Essas culturas entendem a natureza como sujeito(s), e não como objeto, do qual são parte inseparável e com quem têm relações ricas, diversas e profundas.

De acordo com o Global Safety Net, 85% da região amazônica é de vital importância para a diversidade biológica e para o sistema climático global. Atualmente, quase 50% das florestas não degradadas na bacia amazônica encontram-se em terras indígenas, informa pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (Filac) baseada na revisão de mais de 300 estudos publicados nas últimas décadas.

Ou seja, a diversidade biológica e cultural da Amazônia representa uma das forças mais poderosas para as soluções climáticas.

No entanto, as vidas e os direitos dos povos indígenas estão sob ataque no Brasil, e a invasão, o desmatamento e a mineração ilegal em seus territórios vêm aumentando assustadoramente nos últimos anos. De acordo com a publicação Conflitos no Campo Brasil 2020, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), foram registrados 1.576 conflitos por terra no ano passado. Calcula-se que 81 mil famílias tiveram suas terras invadidas, 71,8% delas indígenas.

Com imagens devastadoras, um levantamento revelou que o garimpo na terra indígena yanomami degradou cerca de 200 hectares de floresta no início deste ano. Os yanomanis, assim como os mundurukus, têm sido constantemente atacados. Algumas de suas lideranças, como Maria Leusa Munduruku, ameaçadas. Nesta semana, mais de 400 lideranças indígenas, vacinadas, estão em Brasília para pressionar o Congresso a retirar de pauta projetos de leis que violam os direitos indígenas.

É urgente ampliar significativamente o apoio político e financeiro para os povos indígenas no Brasil, não só no país, mas também internacionalmente.

Um estudo da Rainforest Foundation Norway demonstra que o financiamento para os direitos territoriais e manejo florestal dos territórios indígenas em países com florestas tropicais receberam, na ultima década, menos de 1% dos recursos de Assistência Oficial ao Desenvolvimento (ODA, na sigla em inglês) destinados à mitigação e adaptação às mudanças climáticas. E o Acordo de Paris, adotado em 2015, ainda não levou ao aumento desse financiamento.

Em carta enviada ao presidente dos EUA, Joe Biden, mais de 200 organizações, entre as quais a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), enfatizaram que qualquer apoio ao Brasil deve ser construído a partir do diálogo com as populações locais da Amazônia.

Em abril, Tuntiak Katan, coordenador da Aliança Global de Comunidades Territoriais, enviou uma mensagem, por meio das redes sociais, a Elon Musk, criador de um prêmio de US$ 100 milhões para iniciativas de captura de carbono. A mensagem explica que a melhor solução para as crises climáticas é a sabedoria tradicional. Ou, ecoando as poderosas palavras do líder indígena Ailton Krenak, o futuro é ancestral.

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