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O erro chinês

Gigante asiático vai corrigindo tardiamente política de controle de natalidade

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Criança entre esculturas em Pequim - Noel Celis/AFP

editoriais@grupofolha.com.brAo contrário do Brasil, a China realizou seu censo populacional na data estipulada (2020), e os resultados da pesquisa, que mal começaram a ser divulgados, já vão deflagrando mudanças importantes nas políticas públicas do país.

Ao que tudo indica, muito em breve os casais chineses receberão autorização para ter um terceiro filho. Para o país que durante uma geração inteira impôs a política do filho único, trata-se de contraste gritante. Mas a medida é tardia e provavelmente insuficiente.

Tardia porque mais de três décadas de política de filho único fizeram com que a população chinesa esteja envelhecendo muito rapidamente. Isso significa mais pressão por gastos em saúde e previdência e menos jovens a compor a população economicamente ativa que financiará a despesa.

O desequilíbrio etário não foi o único resultado da política de filho único. Devido à tradição local do dote no casamento, filhos homens sempre foram mais valorizados do que mulheres (significavam um importante dispêndio a menos para a família). Com o advento das ultrassonografias, veio o fenômeno dos abortos seletivos.

Como os casais só podiam ter um filho, asseguravam-se de que a criança fosse do sexo masculino. Nos grupos etários mais afetados pelo fenômeno, hoje na adolescência ou saindo dela, há cerca de 120 homens para cada 100 mulheres.

A liberação do terceiro filho é provavelmente insuficiente porque, em 2015, a China já havia passado a admitir que as famílias tivessem dois. A mudança, entretanto, mal afeta a taxa de fecundidade, que está em 1,3 filho por mulher, bastante abaixo dos 2,1 necessários para manter a população estável.

Autorizações estatais não afetam os principais freios à natalidade, que são a urbanização e a educação das mulheres. Se, no campo, cada filho a mais representa um par de braços extra para trabalhar e gerar renda para a família, na cidade significa mais uma rubrica de despesas e um embaraço logístico a atrapalhar a carreira dos pais.

Pela experiência internacional, sempre que as meninas vão para a escola e a urbanização se amplia, a fecundidade cai. Isso ocorreu no Brasil e, ainda mais, no Irã.

O Politburo chinês provavelmente optou por manter um limite para não assumir que a política do filho único foi um erro. É possível que em breve a potência asiática se veja forçada a abraçar políticas mais ativas de estímulo à natalidade.​

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