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Marília Melo

Reflexões para mais uma crise hídrica

Se nada for feito, produção de alimentos e indústria também serão afetadas

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Marília Melo

Engenheira civil e doutora em recursos hídricos, é secretária de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais

Nos últimos anos, o tema crise hídrica tem sido recorrente na mídia. Em 2014 e 2015, a crise hídrica ganhou repercussão nacional pelo impacto no abastecimento público no Sudeste. Agora, em 2021, o uso central em pauta é a produção de energia. Para se entender um pouco melhor essa dinâmica, é importante que possamos conhecer o comportamento do regime de chuvas e seu consequente impacto na água disponível em rios e reservatórios.

A hidrologia é a ciência que estuda o comportamento da água na terra, e isso significa sua distribuição espacial, sua ocorrência e, também, seu movimento. É sabido que em todos os anos ocorrem períodos de chuva e de estiagem e que esses períodos não têm, necessariamente, o mesmo comportamento ano a ano. Mas isso não significa aguardar para sermos surpreendidos com o que irá ocorrer. É importante saber que, na hidrologia, uma ciência baseada na estatística, é possível avaliarmos comportamentos do passado e, com base nos mesmos, planejarmos o futuro.

Planejamento. Esta é a palavra que mais deveria chamar atenção em momentos como esses em que o comportamento hidrológico é usado como a única justificativa para restrições que podem ser impostas.

Em 2014-15, discutíamos o risco ao abastecimento público nas principais capitais do Sudeste pela crise hídrica e tínhamos perdas de água potável de 36,7%. Ou seja, não havia água em quantidade suficiente nos rios e, mesmo assim, perdíamos 36,7% da água após o tratamento nos sistemas de distribuição, que depois seguia até o usuário final. Além disso, poucas cidades tinham redundância nos sistemas de abastecimento público, sem mananciais de contingência; isto é, sem plano B.

Agora, a discussão é sobre energia. Há muito tempo o Brasil tem uma dependência expressiva da energia de base hidráulica —a diversificação da matriz energética ainda é tímida. A segunda opção, as termoelétricas, é utilizada no limite de produção nos momentos de crise.

Vejamos que Minas Gerais tem feito o seu papel. O estado exporta 7,5% da energia do país. Se essa avaliação se der por matriz energética, Minas representa, do total brasileiro, 10,3% em hidrelétrica, 5,2% em gás natural, 6,2% em biomassa e 10,2% em solar. Este cenário é resultante de políticas públicas de incentivo à diversificação, que propiciaram ao Estado alcançar a marca de 1 ​GW de geração distribuída de energia solar. Também deve ser ressaltada a ação de importantes setores, como o sucroenegético, que na safra 2020-21 gerou 3,2 milhões de MWh a partir de biomassa.

Tendo em vista esses dois setores, lições devem ser apreendidas. Além da variabilidade natural dos sistemas hidrológicos, a tendência é de aumento das incertezas introduzidas pelas mudanças climáticas, o que reforça a necessidade de planejar e se preparar. Os exemplos apresentados se limitaram aos impactos das estiagens, mas os últimos períodos de chuva também têm impactado significativamente nossas cidades —novamente por um planejamento deficiente do sistema de drenagem pluvial.

As soluções existem, já foram testadas e há resultados comprovados em diversas regiões do mundo. Algumas podem ser citadas: infraestrutura hídrica, recuperação de bacias hidrográficas (soluções baseadas na natureza), diversificação de fontes (água de chuva e reúso) e aproveitamento de tecnologias de racionalização em todos os setores usuários de água.

A agenda da segurança hídrica tem que ser assumida em todos os níveis de governo, como prioridade estratégica de desenvolvimento. Em grandes proporções, o abastecimento público e a atual produção energética em pauta, sem planejamento, sofreram por condições de estiagem. Se nada for feito, em breve será a produção de alimentos, a indústria e todos os usos múltiplos, gerando perdas econômicas significativas para o país.

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