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No papel, pode-se completar a vacinação neste ano; fazê-lo exige enorme esforço

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Vacinação contra a Covid-19 em São Paulo - Rivaldo Gomes/Folhapress

Acossado pela queda da popularidade e pela erosão das chances de reeleição, o presidente Jair Bolsonaro, quem diria, escorou-se na vacinação para tentar estancar a derrocada, a julgar pelo discurso em cadeia de rádio e TV desta quarta (2).

Todos os brasileiros —presumem-se os adultos— que quiserem serão vacinados até o fim deste ano, prometeu o chefe de Estado.

É o que lhe resta diante da terra arrasada deixada por seu governo em todos os setores da administração. A imunização, que estaria bem mais adiantada não fosse a incúria do Planalto, salva vidas e impulsiona a retomada econômica, o que tende a beneficiar incumbentes.

Por sua vez, o governador João Doria (PSDB), outro pleiteante à Presidência em 2022, divulgou calendário prevendo a vacinação de todos os paulistas acima de 18 anos de idade até o final de outubro.

Embora as credenciais de Doria no campo da vacinação estejam bem mais lastreadas em fatos do que as de Bolsonaro, o cumprimento das promessas e expectativas emanadas dos dois governantes depende de esforços consideráveis, dados o ritmo e as perspectivas atuais do processo no Brasil.

O Ministério da Saúde projeta a disponibilização de mais de 560 milhões de doses até o final deste ano, das quais 100 milhões já foram distribuídas aos estados pelo Programa Nacional de Imunização. Em tese, haveria portanto vacina bastante para aplicar duas doses nos mais de 213 milhões de brasileiros de todas as idades.

O principal problema têm sido as frustrações desse prospecto, sobretudo em razão das incertezas quanto aos carregamentos oriundos da China. A Fiocruz acaba de reduzir a menos da metade, para 50 milhões, a estimativa de produção completamente nacional de vacinas AstraZeneca neste ano.

O laboratório estatal sediado no Rio pretende compensar o desfalque com a importação ainda não contratada de mais insumos, o que dependerá de Pequim. À labiríntica burocracia chinesa também estão sujeitos os suprimentos ao Butantan, que receberá o próximo voo da potência asiática, com material suficiente para 10 milhões de doses, apenas no final deste mês.

Portanto, se há algo a que o presidente Bolsonaro deveria dedicar 24 horas de seu dia é a China e outros fornecedores que possam garantir e adiantar suprimentos. Os passeios de motocicleta, os insultos a quem lhe aponta as múltiplas falhas e as asneiras sinofóbicas deveriam dar lugar a uma imersão concentrada e obsessiva —trabalhar um pouco, até para variar.

Aos demais atores envolvidos na mais importante campanha de vacinação da história, também deveria ser incutido o senso de urgência. Tempo perdido significa morte.

editoriais@grupofolha.com.br

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