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Clima de urgência

Europa anuncia plano contra aquecimento global, e Brasil tende a ser uma vítima

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Enchente em Bad Neuenahr, na Alemanha - Ferdinand Werzbach/AFP

Altas de temperatura batendo recordes no oeste dos EUA e do Canadá. Pior seca no Brasil em 91 anos. Chuvas torrenciais na Europa deixam centenas de vítimas.

Antes mesmo de enfrentar seus dias de Terceiro Mundo, a União Europeia anunciou planos audaciosos para contra-arrestar a mudança climática que, asseveram os melhores especialistas, está por trás dessas catástrofes.

Mais frequentes, os desastres agregam urgência às negociações internacionais contra o aquecimento global, porém não o bastante para evitar o pior. Europeus mais uma vez se põem na vanguarda, só que conjunturas diversas de política doméstica ainda cerceiam o nível de ambição em países-chave para a mitigação.

O plano Fit for 55 da EU prevê que as 27 nações reduzam em 55% emissões de carbono alimentadoras da fornalha do clima, até 2030, tomando por base níveis de 1990. Melhor que os EUA de volta à mesa do Acordo de Paris prometendo corte entre 40% e 43%, mas aquém do Reino Unido (68%).

Atraiu atenção geral a meta de proibir após 2035 o fabrico de automóveis com motores a combustíveis fósseis. Mais consequências internacionais, contudo, se esperam do chamado mecanismo de ajuste de carbono na fronteira.

Na prática, é um imposto sobre importação de carbono. Empresas que se aproveitarem de regulações frouxas de outras nações para produzir bens destinados ao continente ficarão sujeitas a taxas.

Europeus se reservam o direito de reconhecer esforços deste ou daquele país para abonar o gravame, e tal discricionariedade decerto engendrará acusações de protecionismo. Da China, quiçá, que por ora só admite estancar o crescimento de emissões em 2030.

Mais ameaçadora se mostra a iniciativa para o Brasil. Chineses, ao menos, têm políticas claras de descarbonização do desenvolvimento; aqui se caminha para trás.

O governo de Jair Bolsonaro só promete o que não lhe cabe cumprir: neutralizar as emissões nacionais em 2050. Não tem nenhum plano sobre como chegar lá, pois precisaria começar já se quisesse dar credibilidade ao compromisso.

Ao contrário, para premiar a banda mais atrasada do agronegócio, deixa fora de controle a maior fonte brasileira de gases do efeito estufa —o desmatamento. A Amazônia, que sempre figurou como sumidouro de carbono, tornou-se emissora líquida de poluição.

Nessa toada, a política de descaso de Bolsonaro para o ambiente ainda vai custar muito mais caro para o Brasil do que já custa.

editoriais@grupofolha.com.br

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