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Michael Kepp

Um ultimato radical?

Perdi um amigo ao anunciar que não toleraria mais negacionistas da vacina

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Michael Kepp

Jornalista norte-americano radicado há 38 anos no Brasil, é autor de ‘Tropeços nos Trópicos - Crônicas de um Gringo Brasileiro” (ed. Record) e ‘Um Pé em Cada País’ (Tomo Editorial, 2015)

Recentemente, eu, um americano que em abril passou 12 dias em um hospital do Rio de Janeiro com um caso grave de Covid-19, postei na minha página do Facebook uma mensagem que dizia: “Neste ponto da pandemia, decidi distanciar-me física e emocionalmente de qualquer pessoa que conheço que se recusa a ser vacinada contra a Covid. Isso inclui parentes e amigos de longa data, sem exceções. Proposta radical? Não, eu não acho”. E também enviei essa mensagem para todos os meus “amigos de Facebook”.

Dias depois, um amigo de infância, que votou duas vezes em Donald Trump, me enviou um e-mail perguntando qual era a lógica por trás do meu ultimato. E eu lhe respondi com o seguinte e-mail:
“Eu não vou mais me associar ou manter contato com aqueles que se recusam a ser vacinados. Por quê? Essas pessoas estão agindo de forma imoral em negar o bem comum e o direito coletivo de sobreviver num mundo no qual a Covid já matou mais de 4 milhões de pessoas. A vacinação contra a doença, embora não seja 100% eficaz, provou ser segura e é a única maneira de reduzir significativamente a transmissão, algo que já é consenso entre os cientistas. Máscaras e distanciamento social, por si sós, não farão isso, especialmente agora que a variante Delta está ganhando força.”


E acrescentei: “Além disso, se você se recusa a ser vacinado e precisar ser hospitalizado, estará ocupando desnecessariamente um leito que poderia ser usado por uma pessoa ainda não imunizada que desejava a vacina, ou mesmo por alguém que já foi vacinado e precisa de hospitalização, embora sejam casos pouco comuns”.

Tentei explicar para ele que estamos lidando com uma questão moral, não de liberdade, como muitos do movimento antivacina argumentam. Alguns americanos chegam a dizer que até recomendações de saúde pública sobre uso de máscaras amordaçam a liberdade individual. Embora meu ultimato não se estenda a esses extremistas, eu, que me recuso a seguir a “lei de Gérson”, argumentei que ninguém tem a liberdade de se negar a tomar vacina e, assim, colocar em risco a vida dos outros.

Eu também perguntei a esse amigo se ele havia se vacinado. Em vez de responder, ele me enviou várias notícias falsas de sites de extrema direita dizendo, sem apresentar nenhuma prova, que as vacinas não são nada seguras e já mataram milhares, senão dezenas de milhares de pessoas. Fake news. E acrescentou que, embora tenha ficado surpreso que alguém tão informado quanto eu não soubesse dos perigos das vacinas, não queria me perder como amigo.

Decidi então pagar o preço do meu princípio postado no Facebook e interromper a comunicação. Princípios são difíceis de seguir porque não admitem exceções. Mas eles nos dão uma moeda preciosa: respeito próprio. Algumas pessoas, porém, gastam com demasiada facilidade esse capital moral, como bem notou, com seu humor corrosivo, Groucho Marx: “Estes são meus princípios. Se você não gosta deles... Bem, eu tenho outros”.

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