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O que a Folha pensa

O caso Guedes

Revelação de offshore demanda esclarecimentos e debate sobre transparência

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O ministro Paulo Guedes, da Economia - Evaristo Sá/AFP

A Câmara dos Deputados convocou o ministro Paulo Guedes, da Economia, a “prestar esclarecimentos sobre empresas registradas em seu nome, sediadas no exterior”.

A Procuradoria-Geral da República abriu investigação preliminar sobre uma empresa que Guedes possui nas Ilhas Virgens Britânicas, revelada por um consórcio de jornalistas. O Ministério Público pede que o Tribunal de Contas da União investigue o ministro.

O caso provoca tumulto porque o titular da Economia está enfraquecido e ainda mais fraco se torna por causa do alvoroço.

Nesta sexta (8), Guedes afirmou que a situação de seu patrimônio no exterior cumpre os requisitos legais —foram declaradas às autoridades. Disse, ademais, que seus recursos em geral estão sob administração de gestores independentes, o que atende a questões éticas.

As dúvidas e críticas seriam “barulho”, que “vai piorar com a proximidade das eleições”.

De política também se trata, sem dúvida. Maus resultados na economia, desprestígio no Congresso e entre seus pares no primeiro escalão e no Planalto motivam ataques ao ministro. Ele se tornou alvo de especial atenção entre tantos que tiveram vazados seus ativos no exterior, como o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ora quase esquecido na polêmica.

A memória muito viva de corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação de impostos no país contribui para tornar mais desconfortável o episódio para Guedes. Sua demora em esclarecer suas transações e seu comportamento habitual, de bazófia e bravatas destemperadas, também não o favorece. A desconfiança poderia ser menor não fosse o fato de que a lei desobriga autoridades de abrir suas contas e, assim, dirimir dúvidas sobre eventuais conflitos de interesses.

Tal segredo acaba por suscitar especulações até sobre as declarações do Comitê de Ética Pública (CEP), que analisou em um tardio maio de 2019 a Declaração Confidencial de Informações a respeito dos haveres do ministro.

A CEP diz que “recomendou ações para mitigar e evitar a possibilidade de ocorrência de conflito de interesses”. O ministro até então não teria tomado tais providências? Haveria falhas?

Os advogados de Guedes afirmam que, por iniciativa própria, enviarão à Procuradoria-Geral da República e ao Supremo Tribunal Federal informações comprobatórias da sua lisura. É positivo que o façam, embora muito do desgaste já esteja consumado.

A insatisfação geral com a inflação e o desemprego, além da pressão política por cargos, emendas e liberalidades com o Orçamento, transformaram em evento maior o caso da empresa offshore.

O episódio será mais proveitoso, de todo modo, se suscitar debate sobre procedimentos mais transparentes a serem cobrados das autoridades que ocupam cargos elevados da administração pública.

editoriais@grupofolha.com.br

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