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Charles Mady

O que devemos à USP

Ainda que com a sensação de missão cumprida, fica o sentimento de não ter feito mais

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Charles Mady

Médico e professor associado do Instituto do Coração (Incor) e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

A educação constrói o ser humano, e consequentemente, a sociedade. O reconhecimento às instituições que nos levaram a ser o que somos é de grande importância em nossas vidas, pois gratidão e respeito são itens básicos no seio de uma sociedade saudável. Mas essa cultura de valorização é pouco lembrada e estimulada, com o legado dos centros educacionais sendo prejudicado ou esquecido.

As causas são várias. As culturas do utilitarismo e do individualismo estão enraizadas, mas talvez as maiores estejam internas nas academias, que deveriam se integrar mais àqueles que nos mantêm. Temos observado esforços recentes nessa direção, mas ainda insuficientes. Permanecemos até os 75 anos de idade ligados à USP, e o que ela fez por nós, e o que fizemos por ela?

Nossa formação inicial foi realizada em escola pública, que era na ocasião de alta qualidade. Após essa fase, fomos matriculados em escola privada, até realizar o concurso vestibular.

Cursamos o primeiro ano na Faculdade de Medicina da USP em 1965, recebendo o diploma em 1970. O curso foi de um nível muito alto, tanto na formação profissional como humana, tendo sido certamente um dos maiores pontos em nossa educação. A dedicação de alunos e professores era integral, havendo exigências equilibradas de todos os envolvidos. Foram tempos politicamente conturbados, que geraram apreensões, medo e revoltas, que deixaram marcas e cicatrizes definitivas em todos nós. Muitos não retornaram. Como dizem certos filósofos e religiosos, a dor pode ser uma grande professora. E foi. Até hoje temos suas lições marcadas em nossas mentes, desenvolvendo em nós a noção do que não mais queremos. Difícil avaliar o custo humano herdado, que até hoje influencia nossos pensamentos.

Entramos na USP ingênuos, imaturos, tornando-nos pretensamente adultos abruptamente para enfrentar a sociedade. Essa conscientização não foi fácil, e cada qual atingiu esse ponto de formas diversas. De minha parte, após leituras de inúmeras ideologias cativantes, conclui que qualquer sistema que não respeite o ser humano não deveria ter espaço entre nós.

Essas ideologias têm a capacidade de fanatizar pessoas, tornando-as fundamentalistas, sectárias, com todas as suas consequências malignas. É o "ideal" a qualquer custo. E, para tentar atingir um campo de equilíbrio, devemos ser educados, devemos educar. Durante o curso de graduação, vimos vertentes radicais e outras moderadas. A USP, com seu universo de pensamentos, nos apresentou as variadas formas de pensar, aprimorando nosso senso crítico.

Terminada a graduação, iniciamos a residência médica no Hospital das Clínicas, em contato direto com o que havia de melhor no meio profissional. A riqueza de informações recebida foi incalculável, moldando-nos tanto para a prática na sociedade como para a carreira universitária. Esta foi por nós seguida, tendo como caminho a preceptoria e a pós-graduação, com o mestrado e o doutorado, recém-aprovados, que levou a um salto na qualidade científica, tendo toda a USP se beneficiado. Passamos a orientar outros centros que iniciavam seus programas por todo o país. Ter participado desse processo, representando nossa universidade, é motivo de orgulho. A recompensa moral é muito grande. Além de educar boa parte da intelectualidade da sociedade, nossa academia passou a formar outros centros, cumprindo sua vocação.

A vida, dentro de nossa unidade, como em qualquer ambiente de trabalho, é muito produtiva, mas também complexa do ponto de vista político. A competição saudável é necessária dentro de qualquer sistema que queira evoluir. Vivemos uma época de ideologias, corporativismos e interesses, que muitas vezes migram para a desonestidade intelectual e material, que é o contraponto do que foi aqui colocado.

Vivemos também as consequências decadentes dessas formas de pensar. Convivemos com o que há de melhor e pior no ser humano. Ambições desmedidas, a busca amoral de prestígio e poder ocorrem tanto nas academias como em qualquer outro segmento profissional. Mas preocupa o crescimento desses distúrbios sociais, dessas formas destrutivas de pensar, que fazem escola, muitas vezes inibindo a evolução de profissionais que fariam parte do que há de melhor, que têm atuação e produção que enobrecem nossa universidade, mas não têm tempo para uma dedicação política maior. Certos filósofos diriam que o ser humano é assim, com virtudes e defeitos, fazendo a evolução se caracterizar por altos e baixos. É a luta pela sobrevivência, leal ou desleal.

Estamos no final de nossa carreira acadêmica, perto da outra margem, com a sensação de missão cumprida, tendo feito o possível. A vida acadêmica na USP, apesar das dificuldades, nos trouxe um imenso sentido de realização, que ultrapassa, e muito, qualquer aspecto negativo. Fica o sentimento de não ter feito mais. Os que fazem querem sempre fazer mais, construir mais, e melhor. Somos gratos à USP, pois durante essa trajetória foi um norte para nós. Orgulho de termos feito parte dessa instituição, que é patrimônio intelectual deste país.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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