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Marcia Camargos

Os donos da narrativa

Di Cavalcanti e outros artistas da Semana de 22 são, enfim, resgatados

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Marcia Camargos

Escritora e doutora em história (USP), acaba de finalizar pós-doutorado na Universidade de Sorbonne sobre os modernistas brasileiros em Paris nos chamados “anos loucos” (década de 1920)

Justiça foi feita. Di Cavalcanti teve reconhecido seu quinhão de importância na Semana de 22. Sabemos que, antes de desenhar o catálogo e tomar parte da mostra artística, levou sua roda à mansão do mecenas Paulo Prado, onde surgiu a ideia de um festival nos moldes das "fêtes à Deauville", na costa da Normandia, com pintura, audições musicais, declamação e até desfiles de moda. A São Paulo, polo econômico, faltava a emancipação cultural. Assim, a burguesia cafeeira estrategicamente endossou a proposta, financiando a Semana de Arte Moderna.

Agora, nas comemorações do centenário do evento, artigos têm evocado Di e outros nomes até então deixados de fora. Interessa indagar, no caso, por que, durante tanto tempo, o crédito coube apenas a Mário e Oswald de Andrade, além de Tarsila do Amaral, que sequer estava no país na ocasião. Como se explica que, passados quase cem anos, precisamos lembrar os demais artistas e intelectuais de destaque na época, mas ofuscados pelo brilho excessivo do trio?

Vale reiterar que o projeto estético resultante da Semana, estopim do modernismo, surgiria aos poucos, no decorrer dos debates que dariam origem a manifestos e revistas. Ou seja, sua estruturação teórica foi sendo construída nas correntes que nasceram depois. Nesse sentido, os três tiveram papel seminal.

Primeiro, colaboraram para a revista Klaxon, lançada em 15 de maio de 1922, mesmo ano em que Mário editava "Pauliceia Desvairada", com uso livre da métrica, bem no ritmo das vanguardas europeias.

Ele empreenderia duas viagens etnográficas ao Norte e Nordeste, entre 1927 e 1929, num périplo em busca da identidade nacional. Em 1928, viria a público "Macunaíma", um dos principais marcos do nosso modernismo. E seu parceiro não deixou por menos. Com o "Manifesto da Poesia Pau-Brasil", de 1924, Oswald estabelecia os fundamentos de um novo fazer literário. Sua poética baseada na técnica de montagem, de interações com as artes plásticas e o cinema, influenciaria toda uma geração de escritores.

E graças à imbatível antropofagia de 1928, que propunha a devoração ritual dos valores europeus para superar a civilização patriarcal e capitalista, criou uma das sínteses mais bem-sucedidas da dialética modernista, consolidando-se como a ponta de lança e um dos pilares do movimento.

Anita Malfatti também poderia figurar entre os herdeiros privilegiados. Seu pioneirismo evidenciou-se no fato de que, entre os 100 itens da exposição, 20 eram de sua autoria. Eleita mártir inspiradora do grupo, devido às críticas de Monteiro Lobato ao seu vernissage de 1917, cairia no esquecimento ao abandonar as pinceladas vigorosas, impactadas pelo expressionismo alemão, que tanto cativara seus amigos vanguardistas. Natural, portanto, que Tarsila ocupasse o posto de musa. Apesar de não ter exposto no saguão do Theatro Municipal de São Paulo, ela fez coincidir sua pintura com as fases Pau-Brasil e Antropofagia, enveredando em seguida por temáticas ligadas à classe trabalhadora.

Residem, aí, algumas das razões para a consagração desses personagens como porta-estandartes da Semana de 22, excluindo Di Cavalcanti e seus pares. Contudo, também pesou a eficiente máquina de propaganda dos próprios protagonistas, acionada no seu 20º aniversário, com as conferências de Mário de Andrade em 1942.

A estratégia perpassou todo o século 20, envolvendo um conjunto de agentes, críticos, historiadores, curadores de arte e intelectuais que, sobretudo no meio acadêmico, chancelaram a supremacia da tríade.
E fizeram-no de forma tão competente que conseguiram, inclusive, esconder os ideólogos de direita, como Menotti Del Picchia, ex-embaixador dos "futuristas" no Correio Paulistano. Ao lado de Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo e Plínio Salgado, ele fundou em 1927 o Movimento Verde-Amarelo, convertido em 1929 na Escola da Anta, defendendo um patriotismo exacerbado de tendência conservadora.

Por uma dessas ironias da sorte, competiu a Del Picchia, ainda em fevereiro de 1922, repercutir, na sua coluna, a euforia de Mário de Andrade, que anunciou, profético: "Seremos lindíssimos! Insultadíssimos! Celebérrimos. Teremos os nossos nomes eternizados nos jornais e na História da Arte Brasileira".

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