A fuga da corte brasileira para Portugal

Com degradação da situação do país, elites veem aeroporto como única saída

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Giuliana Miranda
Giuliana Miranda

Jornalista, escreve para a Folha desde 2010. Radicada em Lisboa desde 2014, é mestre em ciência política e relações internacionais pela Universidade Católica Portuguesa. Atual presidente da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal.

Alvo recente de intenso escrutínio midiático, o fenômeno das crianças portuguesas que se expressam com forte sotaque do Brasil devido à influência de youtubers brasileiros ganhou, nas redes sociais, a provocadora alcunha de colonialismo reverso.

O clima em Portugal neste fim de ano, no entanto, está mais para outro episódio dos livros de história: a fuga da corte. O movimento agora, porém, dá-se no sentido inverso. É a elite brasileira que corre para o outro lado do Atlântico.

A mudança, que começou timidamente com a chegada de estudantes e profissionais liberais, está cada vez mais intensa. Balneário dos abastados nas proximidades de Lisboa, Cascais já reúne tantas celebridades brasileiras que um desavisado facilmente poderia se confundir e achar que está no Leblon.
Confabulações da política e do judiciário brasileiro, incluindo encontros de altos representantes do centrão, atualmente acontecem com desenvoltura entre Brasília e o Chiado.

Bonde passa em frente ao Consulado-Geral do Brasil em Lisboa - Líbia Florentino - 10.ago.2021/Folhapress

Nas últimas semanas, a situação ganhou ares ainda mais frenéticos devido às mudanças nos vistos especiais para compradores de imóveis de luxo, anunciadas para o começo de 2022. Lisboa, Porto e várias das cidades mais valorizadas deixarão de ser elegíveis para o programa, que contempla os estrangeiros que adquiram —sem recorrer a empréstimos— imóveis a partir de € 500 mil (R$ 3,22 milhões).
Os brasileiros são a segunda nacionalidade mais beneficiada pelo chamado visto gold, atrás dos chineses.

Imobiliárias, consultorias e advogados relatam um boom na procura. Um famoso empreendimento tem anunciado a possibilidade de adquirir lotes para construção futura, mas com emissão imediata de escritura. Outros fazem mutirão para assegurar visitas e documentação completa antes da virada do ano.

Com a contínua degradação social e econômica do Brasil, a tendência é que cada vez mais as elites vejam o aeroporto como única saída para os problemas do país. Estará Portugal preparado para elas?

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