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Marcelo Mirisola

Cama de gato: perversão e conversão

O diabo é democrático e atende demandas à esquerda e à direita

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Marcelo Mirisola

Escritor, é autor, entre outros, de “O Azul do Filho Morto”, “Como se me Fumasse" e “Quanto Custa um Elefante?” (ed. 34)

Eu glorifico a Deus nas alturas quando alguém me diz que foi convertido. Primeiro, porque cabe ao convertido, e a ele somente, dar satisfações e glorificar a quem se converteu. E depois, glória a Deus!, pelo fato de que não foi ao meu convencimento que ele se converteu. A coisa deveria acabar assim: na base do respeito mútuo. Mas é exatamente neste lugar que começa o conflito. Quando o convertido vira conversor. E isso vale para qualquer causa, é bom que se diga. Vale tanto para o divino e maravilhoso, passando pelo controle remoto da TV até o implante capilar do novo ministro do Supremo.

Segundo a Bíblia, o único jeito de se chegar ao Pai é seguindo os ensinamentos e exemplos de Jesus Cristo. Não se chega ao Pai na marra, forçando a conversão alheia. Vale dizer, conversão não é experiência coletiva: cada um, dentro de suas limitações, chega a Deus e ao STF como pode. André Mendonça que o diga.

O escritor Marcelo Mirisola - Zô Guimarães - 4.jan.18/Folhapress

Falando nisso, tem um vídeo de Silas Malafaia, padrinho de Mendonça, bombando no YouTube. O pastor comemora "a cama de gato" que o afilhado espertalhão aplicou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Mendonça era inquirido sobre a união de pessoas do mesmo sexo, tema que sabidamente vai na contramão da doutrina pregada por Malafaia, e que —é bom dizer— nada tem a ver ou não consta nem remotamente dos ensinamentos de Jesus Cristo. Está lá para todo mundo ver: o VAR da "cama de gato" aplicada nos senadores, e o gol de Mendonça. No mesmo vídeo, Malafaia aproveita para lançar uma praga sobre o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Aplicar "cama de gato" é o expediente número 1 do diabo. Outra coisa que o diabo adora é abraçar as pragas e maldições que os homens lançam uns contra os outros, ainda que "o outro" seja o Alcolumbre.

Dito isso, creio que, à guisa de ilustração, é oportuno reproduzir a "cama de gato" mais famosa da Bíblia (Mateus 4:1-11): "os anjos vão te escorar, my brô. Pula! Pula do pináculo! Tô contigo! Olha o mundão! Tudo teu, cumpadi! Pra curtir a milhão com os parça; é muita zoeira, tá ligado? Bora, bora, bora".

Por essas e outras que não é recomendável dar procuração nem pagar dízimo a qualquer um. Muito menos para aqueles que pretendem nos converter —via de regra ao maligno. Está a fim de uma sinecura no Ministério da Pesca? Só pular do pináculo, my brô. Relaxa e goza grosso. Você pode trocar a alma por uma imortalidadezinha na Academia Brasileira de Letras ou tatuar um tridente no ânus: o diabo é democrático e atende demandas à esquerda e à direita, com ele não tem discriminação. Está a fim de construir um templo salomônico para adorá-lo? Vá em frente! Aconchegue-se no peito do traidor e de repente descole uma vicepresidenciazinha. Curtiu? Curta, porque se Deus não existe tudo é permitido. Está a fim de sacrificar milhares de vidas e a saúde mental de toda uma nação? Diboas!

Agora, se você quiser falar e/ou se converter a Deus, apague a luz, fique a sós e não diga nada. Se você quiser falar com Deus, esvazie as mãos para ter a alma e o corpo nus, separe o Gil do esoterismo. Não há necessidade de dogmas, pompas e ouropéis, muito menos de unções, gritaria, efeitos especiais e "camas de gato". Pode ser que uma brisa suave e delicada lhe refrigere a alma —ou que uma luz violenta o cegue a caminho de Pirituba. Ou pode ser, ainda, que nada de especial aconteça, e os céus se abram a partir da nudez de uma única alma entre milhares de outras perdidas para o diabo. Não importa o lugar, a forma e a plataforma, mas o encontro e a cura —sem intermediários, não custa nada, Deus é de graça e não vai arrumar vaga para otário no time do Michel Teló.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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